domingo, 24 de março de 2024

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Livro de Kells
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O Livro de Kells (em inglês: Book of Kells; em irlandês: Leabhar Cheanannais), também conhecido como Grande Evangeliário de São Columba, é um manuscrito ilustrado com motivos ornamentais, feito por monges celtas por volta do ano 800 AD no estilo conhecido por arte insular.
Esta página (fólio 292) contém o texto ricamente decorado de introdução ao Evangelho segundo João

Peça principal do cristianismo irlandês e da arte hiberno-saxônica,[1] constitui, apesar de não concluído, um dos mais suntuosos manuscritos iluminados que restaram da Idade Média. Em razão da sua grande beleza e da excelente técnica do seu acabamento, este manuscrito é considerado por muitos especialistas como um dos mais importantes[1] vestígios da arte religiosa medieval. Escrito em latim, o Livro de Kells contém os quatro Evangelhos do Novo Testamento, além de notas preliminares e explicativas, e numerosas ilustrações e iluminuras coloridas. O manuscrito encontra-se exposto permanentemente na biblioteca do Trinity College de Dublin, República da Irlanda, sob a referência MS A. I. (58).

História

O fólio 29 contém o incipit do Evangelho segundo Mateus, chamado Liber generationis. Compare esta imagem com a página correspondente dos Evangelhos de Lindisfarne (ver aqui), em particular a forma do monograma Lib

O Livro de Kells é o mais ilustre representante de um grupo de manuscritos conhecido por estilo insular produzidos entre o final do século VI e o início do IX, nos monastérios da Irlanda, Escócia e do norte da Inglaterra.[2] Estão entre eles o Cathach de São Columba, o Ambrosiana Orosius, um fragmento de evangelho na biblioteca da catedral de Durham (todos do início do século VII), e o Livro de Durrow (da segunda metade do século VII). No começo do século VIII foram produzidos os Evangelhos de Durham, os Evangelhos de Echternach, os Evangelhos de Lindisfarne e os Evangelhos de Lichfield. Entre outros, o Evangeliário de St. Gall pertence ao final do século VIII e do Livro de Armagh (datado de 807-809) ao início do século IX.[3] Todos estes manuscritos apresentam semelhanças do ponto de vista do estilo artístico, da escrita e das tradições escritas, as quais têm possibilitado reagrupá-los na mesma família. O estilo plenamente conseguido das colorações coloca o Livro de Kells entre as obras mais tardias desta série, por volta do final do século VIII ou início do IX, ou seja, na mesma época do Livro de Armagh. A obra respeita a maioria das normas iconográficas e estilísticas presentes nestes escritos mais antigos: por exemplo, a forma das letras decoradas que iniciam cada um dos quatro Evangelhos é muito semelhante entre todos os manuscritos das Ilhas Britânicas compostos nesta época. Compare a página introdutória do Evangelho segundo Mateus nos Evangelhos de Lindisfarne com a do Livro de Kells. Ambas possuem intrincados desenhos decorativos no interior dos contornos das letras iniciais do texto.

O Livro de Kells deve seu nome à abadia de Kells, situada em Kells, no condado de Meath, Irlanda. A abadia, onde conservou-se o manuscrito por um grande período da Idade Média, foi fundada no início do século IX, na época das invasões viquingues, que começou em 794 e, eventualmente, dispersou os monges e as suas santas relíquias na Irlanda e na Escócia.[5] Os monges eram originários do monastério de Iona, localizado numa das ilhas Hébridas situada em frente à costa oeste da Escócia. Iona possuía uma das comunidades monásticas mais importantes da região desde que São Columba, o grande evangelizador da Escócia, que a havia tornado seu principal centro de irradiação no século VI. Quando a multiplicação das incursões viquingues acabou tornando a ilha de Iona demasiado perigosa, a maioria dos monges partiram para Kells, que converteu-se assim no novo centro das comunidades fundadas por Columba.

A determinação exata do lugar e da data da produção do manuscrito tem sido fonte de inúmeros debates. Segundo a tradição, o livro data da época de São Columba[6] (também conhecido por São Columcille), talvez escrito por ele mesmo em pessoa. Contudo, estudos paleográficos têm demonstrado que esta hipótese não é verdadeira, uma vez que o estilo caligráfico usado no Livro de Kells desenvolveu-se posteriormente à morte de Columba.[7] Evidências mostram que o Livro de Kells foi escrito por volta do ano 800.[8][9] Há uma outra tradição, com maior aceitação pelos estudiosos irlandeses, que sugere ele ter sido criado por ocasião do aniversário de 200 anos da morte do santo.

O manuscrito nunca foi terminado. Produziram-se, pelo menos, cinco teorias diferentes sobre a origem geográfica do manuscrito. Na primeira, o livro poderia ter sido escrito em Iona e trazido às pressas para Kells, o que explicaria a razão dele nunca ter sido concluído. Na segunda, sua redação poderia ter-se iniciado em Iona antes de ser continuada em Kells,[11] onde teria sido interrompida por algum motivo ignorado. Outros pesquisadores aventuram que o manuscrito poderia ter sido totalmente escrito na scriptoria de Kells. Uma quarta hipótese situa a criação original da obra no norte da Inglaterra, possivelmente em Lindisfarne, antes de ser levada até Iona e depois para Kells. O Livro de Kells, finalmente, poderia ter sido produzido em um monastério desconhecido na Escócia. Embora a questão da exata localização da produção do livro provavelmente nunca seja respondida de maneira conclusiva, a segunda teoria baseada na dupla origem de Kells e Iona é atualmente a mais amplamente aceita.[2] Por outro lado, sem querer determinar qual a hipótese correta, o certo é que o Livro de Kells foi produzido por monges pertencentes a uma das comunidades de São Columba, que mantinham estreitas relações com o monastério de Iona.

Período medieval

A abadia de Kells foi pilhada e saqueada pelos viquingues muitas vezes no século X, e como o livro sobreviveu lá não é conhecido.[12] Seja qual for o lugar em que foi criado, os historiadores estão totalmente convencidos da presença do Livro de Kells na abadia de mesmo nome no mínimo a partir do século XII, ou ainda no início do XI. Uma passagem dos Anais de Ulster, sobre o ano de 1006, registra que o grande Evangelho de Columcille [i.e Columba],[13] principal relíquia do mundo ocidental, foi subtraído sub-repticiamente em plena noite de uma sacristia da grande igreja de pedra de Cenannas [i.e Kells] devido ao seu precioso estojo.[2][14] O manuscrito foi encontrado meses mais tarde sob um monte de terra,[15] sem a sua capa decorada com ouro e pedras preciosas. Caso se concorde com esta muito provável hipótese, então o manuscrito em questão é mesmo o Livro de Kells, tratando-se então da primeira data em que se pode atribuir com bastante certeza a existência da obra em Kells. Geralmente assume-se que a "grande Evangelho de Columkille" é o Livro de Kells.

A retirada violenta da capa explicaria, ainda, a perda de algumas folhas do início e fim da obra.

No século XII, foram copiados certos documentos referentes às terras de propriedade da abadia de Kells sobre algumas folhas em branco do Livro de Kells, o que proporciona uma nova confirmação da presença da obra neste estabelecimento monástico. Devido à escassez de papel na Idade Média, a cópia de documentos no meio de obras tão importantes como o Livro de Kells era uma prática habitual.
O fólio 27 contém os quatro símbolos evangélicos (no sentido horário a partir do alto à esquerda: homem, leão, águia e touro)

Livro de Kildare

Um escritor do século XII, Giraldus Cambrensis (Geraldo de Gales), descreve em uma famosa passagem de sua Topographia Hibernica um grande livro evangélico que havia admirado em Kildare, nas proximidades de Kells, e que supõe-se seria o Livro de Kells.[17] A descrição, em todo caso, parece concordar:

“ Este livro contém a harmonia dos Quatro Evangelistas buscada por São Jerônimo, com diferentes ilustrações em quase todas as página e que se distinguem por cores variadas. Aqui podeis ver o rosto de majestade, divinamente desenhado, aqui os símbolos místicos dos evangelistas, cada um com suas asas, às vezes seis, às vezes quatro, às vezes duas; aqui a águia, ali o touro, lá o homem e acolá o leão, e outras formas quase que infinitas. Se observadas superficialmente, com um olhar rápido, pensareis que não são mais do que esboços, e não um trabalho cuidadoso. A mais refinada habilidade está toda ela ao seu redor, mas poderíeis não percebê-la. Olhai com mais atenção e penetrareis sem dúvida no coração da arte. Discernireis complexidades tão delicadas e sutis, tão cheias de contornos e de ligações, com cores tão frescas e vivas, que poderíeis deduzir que tudo isto é obra de um anjo, e não de um homem. ”

Uma vez que Geraldo informa ter visto este livro em Kildare, podia ser que trata-se de outra obra igual em qualidade, mas atualmente perdida. Mais provavelmente, Geraldo poderia simplesmente ter confundido Kells e Kildare.

A Abadia de Kells foi fechada devido às reformas eclesiásticas do século XII. A igreja da abadia foi transformada em uma igreja paroquial, na qual o Livro de Kells permaneceu.

Período moderno

O Livro de Kells permaneceu em Kells até 1654. Nesse ano, a cavalaria de Oliver Cromwell estabeleceu uma guarnição na igreja local, e o governador da aldeia enviou o manuscrito a Dublin para uma maior segurança. O livro foi apresentado aos universitários do Trinity College em 1661 por Henry Jones, que se converteria em bispo de Meath durante o reinado de Carlos II. Salvo em poucas ocasiões, como exposições temporárias, o Livro de Kells nunca mais deixou o Trinity College. Desde o século XIX é objeto de uma exposição permanente e aberta ao público na Velha Biblioteca (Old Library) da universidade.

No [século XVI, os números de capítulo dos Evangelhos, estabelecidos oficialmente no século XIII pelo Arcebispo da Cantuária, Stephen Langton, foram escritos às margens das páginas em números romanos. Em 1621, as folhas foram numeradas pelo bispo de Meath, James Ussher. Em 1849, a rainha Vitória e o príncipe Alberto foram convidados a assinar o livro: na realidade assinaram sobre uma folha colocada posteriormente à criação da obra, mas pensavam estar assinando sobre o original. Esta folha foi retirada quando o livro foi reencadernado em 1953.

O manuscrito sofreu várias reencadernações ao longo dos séculos. Em uma destas ocasiões, no século XVIII, as páginas foram recortadas sem o menor cuidado, ocasionando a perda de uma pequena parte das ilustrações. Em 1895 foi realizada uma nova encadernação, mas esta deteriorou-se rapidamente. No final da década de 1920, existiam muitas folhas soltas separadas do manuscrito. Finalmente, em 1953, a obra foi reencadernada em quatro volumes por Roger Powell, que se ocupou pessoalmente de alisar com todo o cuidado algumas páginas que haviam amassado.

No ano 2000, o volume que contém o Evangelho segundo Marcos foi enviado a Camberra, na Austrália, para uma exposição dedicada aos manuscritos iluminados. Foi a quarta vez que o Livro de Kells viajou para o estrangeiro a fim de ser exposto. Infelizmente, durante a viagem, o volume sofreu danos menores em sua pigmentação. Supõe-se que as vibrações produzidas pelos motores do avião podem ter sido a causa.

Reproduções

O fólio 183 do fac-símile de 1990 : Erat autem hora tercia (era a hora terceira)

Em 1951, uma editora suíça, a Urs Graf-Verlag Bern, produziu um fac-símile do Livro de Kells. A maioria das páginas foi reproduzida em fotografias em branco e preto. Havia, contudo, quarenta e oito páginas reproduzidas em cores, incluindo todas aquelas com decorações em toda a página.

Em 1974, Thames e Hudson, com autorização do Conselho do Trinity College Dublin, produziram uma edição fac-símile de todas as páginas totalmente ilustradas do manuscrito e uma seção representativa da ornamentação das páginas de texto. Foram também incluídos detalhes ampliados das ilustrações. Todas impressas em cores. As fotografias foram feitas por John Kennedy, Green Studio, Dublin.

Em 1979, as Éditions Facsimilé Lucerne, outra editora suíça, solicitaram autorização para produzir um fac-símile totalmente em cores. A permissão inicialmente foi negada pelos responsáveis do Trinity College, que temiam que o manuscrito sofresse danos durante a operação. Em 1986, depois de desenvolver um processo de um cuidadoso dispositivo de aspiração que permitia posicionar e fotografar as páginas sem ter que tocá-las, o editor obteve finalmente a permissão para produzir a edição fac-símile. Depois de fotografar cada página, era feita uma cópia para comparar atentamente as cores com as do original, para fazer os ajustes que fossem necessários. Em 1990 publicou-se o fac-símile em dois volumes: o fac-símile propriamente dito e um volume de comentários feitos por especialistas. A igreja de Kells (da Igreja da Irlanda), no local do antigo monastério, dispõe de um exemplar. Está também disponível de uma versão em CD-ROM[18] contendo todas as páginas escaneadas, assim como outras informações.

Referências:  Wikipédia

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