Namastê buscadores!
"Como as aves, as pessoas são diferente
em seus vôos, mas iguais no direito de voar."
(Judite Hertal)
"Primeiro vem o tempo de achar, depois o de seguir. Depois desses, outros tempos, até que venha um tempo só, e é o longo e solitário tempo do silêncio e da observação... Mas para isto é que a memória vale: Aí, nessa distância esta paisagem não parecerá mais uma visão desconhecida, terá apenas um ar familiar e antigo, que nos lembra aquilo que existiu, e foi nosso sem que soubéssemos que era nosso. Será então o tempo de entender."
(Lúcio Cardoso)
(...)
"Todo poder da alma resume-se em três palavras:
- Querer, Saber, Amar!
Querer, isto é, fazer convergir toda a atividade, toda a energia, para o alvo que se tem de atingir, desenvolver a vontade e aprender a dirigi-la. Saber, porque sem o estudo profundo, sem o conhecimento das coisas e das leis, o pensamento e a vontade podem transviar-se no meio das forças... Acima, porém, de tudo, é preciso Amar, porque, sem o Amor, a vontade e a ciência seriam incompletas e muitas vezes estéreis. O Amor ilumina-as, fecunda-as, centuplica-lhes os recursos. Não se trata aqui de amor que contempla sem agir, mas do que se aplica a espalhar o Bem e a Verdade pelo mundo. A vida terrestre é um conflito entre as forças do Mal e as do Bem. O dever de toda alma viril é tomar parte do combate, trazer-lhe todos os seus impulsos, todos os seus meios de ação, lutar pelos outros..."
(Léon Denis)
*
01 - Disciplinar os próprios impulsos.
02 - Trabalhar, cada dia, produzindo o melhor que pudermos.
03 - Atender aos bons conselhos que traçamos para os outros.
04 - Aceitar sem revolta a crítica e a reprovação.
05 - Esquecer as faltas alheias sem desculpar as nossas.
06 - Evitar as conversações inúteis.
07 - Receber no sofrimento o processo de nossa educação.
08 - Calar diante da ofensa, retribuindo o mal com o bem.
09 - Ajudar a todos, sem exigir qualquer pagamento de gratidão.
10 - Repetir as lições edificantes, tantas vezes quantas se fizerem
necessárias, perseverando no aperfeiçoamento de nós mesmos sem
desanimar e colocando-nos a serviço do Divino Mestre, hoje e sempre.
(Chico Xavier - pelo Espírito de André Luiz)
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododentros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa
- Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.