domingo, 21 de dezembro de 2025

O Lugar Onde Acontece ...

Namastê buscadores!
Entre o encerramento de um ciclo e o sopro silencioso do próximo, 
somos convidados a pausar. 

As celebrações do fim do ano não são meros traços no calendário — são portais entreabertos, onde o ar se torna mais leve e a alma, convidada, pode se inclinar para dentro de si.
Este poema nasce desse limiar: do espaço tênue entre o que fomos, o que deixamos dissolver na memória e o que ainda ousamos acolher com mãos abertas. 
Ele não busca respostas prontas, mas presença. Lembra-nos que, em meio a tantas possibilidades, é este instante — frágil, imperfeito e luminoso — que pede cuidado. 
Que estas palavras te acompanhem como uma brisa morna neste tempo de recolhimento e partilha, como uma chama pequena que se divide sem jamais diminuir. 
Que o fim do ano seja um gesto lento de escuta profunda, um descanso que devolve ao corpo sua antiga sabedoria, um retorno amoroso ao que somos quando simplesmente respiramos. 
Que o novo começo chegue no seu próprio ritmo, trazendo presença, cuidado e espaço para que a vida continue a se revelar.
Om, Shanti. 

O Lugar Onde Acontece


Antes do antes,
o Um respirou
e se esqueceu de si.

Do esquecimento
nasceram os Muitos —
não como mundos,
mas como véus.

Cada véu diz: sou real.
Cada real diz: sou centro.
E o centro, multiplicado,
torna-se silêncio.

Há portas que se abrem
somente quando não procuras passagem.
Há escolhas feitas
antes do nome
e depois do fim.

Aquele que vê todos os mundos
não vive em nenhum.
Aquele que habita um instante
contém o infinito dobrado.

É o excesso do dentro
quando o Um tenta lembrar.
Se lembrares demais,
te dispersas.
Se esqueceres demais,
te perdes.

Permanece.
Entre o véu e o sopro.
Ali,
onde não há mundos,
mas origem.

O sentido nasce
do peso de estar aqui,
não da fuga
para todos os possíveis.

Talvez todos os caminhos sejam reais,
mas apenas um é vivido.
E viver é o ato raro
de atravessar o possível
com um corpo frágil
e um tempo que acaba.

Se tudo acontece em algum lugar,
então o mistério não é
o que poderia ser,
mas por que este agora
arde como verdade.

Somos observados em silêncio,
como um templo sem deuses,
onde cada decisão
é um rito irrepetível.

Não importa quantos universos existam —
este momento,
respirando em ti,
é o único que sabe
que existe
em intervalos de luz.

Fomos ensinados a erguer muralhas,
mas aprendemos,
no tempo silencioso,
que a verdadeira fortaleza
é porosa
e respira conosco.

Entre um gesto e outro,
retornamos ao centro luminoso,
onde o “nós” se alarga
e o caminho se reconhece.

Ali partilhamos pesos,
não por fraqueza,
mas porque toda chama
cresce quando dividida.

E o amor se move livre,
sem ornamentos,
puro como água
que conhece seu curso.

A casa que somos
ultrapassa fronteiras:
é abraço que não termina,
que acalma tempestades,
porta que se abre ao mundo
e porta que retorna ao íntimo —
ambas necessárias
ao rito de existir.

Escolhamos sentir.

O que cura não esconde,
acolhe a vida inteira,
mesmo quando dança
fora do compasso.

Para lembrar
que sempre fomos
luz em travessia,

pois o infinito
só se torna verdadeiro
quando aceita caber
em um instante vivido.
por Cassio Toledo
Música Relaxante e Fundo do Mar.