Namastê buscadores!
Entre o encerramento de um ciclo e o sopro silencioso do próximo,
somos convidados a pausar.
As celebrações do fim do ano não são meros traços no calendário — são portais entreabertos, onde o ar se torna mais leve e a alma, convidada, pode se inclinar para dentro de si.
Este poema nasce desse limiar: do espaço tênue entre o que fomos, o que deixamos dissolver na memória e o que ainda ousamos acolher com mãos abertas.
Ele não busca respostas prontas, mas presença. Lembra-nos que, em meio a tantas possibilidades, é este instante — frágil, imperfeito e luminoso — que pede cuidado.
Que estas palavras te acompanhem como uma brisa morna neste tempo de recolhimento e partilha, como uma chama pequena que se divide sem jamais diminuir.
Que o fim do ano seja um gesto lento de escuta profunda, um descanso que devolve ao corpo sua antiga sabedoria, um retorno amoroso ao que somos quando simplesmente respiramos.
Que o novo começo chegue no seu próprio ritmo, trazendo presença, cuidado e espaço para que a vida continue a se revelar.
Om, Shanti.
O Lugar Onde Acontece
Antes do antes,
o Um respirou
e se esqueceu de si.
Do esquecimento
nasceram os Muitos —
não como mundos,
mas como véus.
Cada véu diz: sou real.
Cada real diz: sou centro.
E o centro, multiplicado,
torna-se silêncio.
Há portas que se abrem
somente quando não procuras passagem.
Há escolhas feitas
antes do nome
e depois do fim.
Aquele que vê todos os mundos
não vive em nenhum.
Aquele que habita um instante
contém o infinito dobrado.
É o excesso do dentro
quando o Um tenta lembrar.
Se lembrares demais,
te dispersas.
Se esqueceres demais,
te perdes.
Permanece.
Entre o véu e o sopro.
Ali,
onde não há mundos,
mas origem.
O sentido nasce
do peso de estar aqui,
não da fuga
para todos os possíveis.
Talvez todos os caminhos sejam reais,
mas apenas um é vivido.
E viver é o ato raro
de atravessar o possível
com um corpo frágil
e um tempo que acaba.
Se tudo acontece em algum lugar,
então o mistério não é
o que poderia ser,
mas por que este agora
arde como verdade.
Somos observados em silêncio,
como um templo sem deuses,
onde cada decisão
é um rito irrepetível.
Não importa quantos universos existam —
este momento,
respirando em ti,
é o único que sabe
que existe
em intervalos de luz.
Fomos ensinados a erguer muralhas,
mas aprendemos,
no tempo silencioso,
que a verdadeira fortaleza
é porosa
e respira conosco.
Entre um gesto e outro,
retornamos ao centro luminoso,
onde o “nós” se alarga
e o caminho se reconhece.
Ali partilhamos pesos,
não por fraqueza,
mas porque toda chama
cresce quando dividida.
E o amor se move livre,
sem ornamentos,
puro como água
que conhece seu curso.
A casa que somos
ultrapassa fronteiras:
é abraço que não termina,
que acalma tempestades,
porta que se abre ao mundo
e porta que retorna ao íntimo —
ambas necessárias
ao rito de existir.
Escolhamos sentir.
O que cura não esconde,
acolhe a vida inteira,
mesmo quando dança
fora do compasso.
Para lembrar
que sempre fomos
luz em travessia,
pois o infinito
só se torna verdadeiro
quando aceita caber
em um instante vivido.
por Cassio Toledo
Música Relaxante e Fundo do Mar.
