Om shanti, buscadores!
Adentre os véus do desconhecido e permita que o poema seja a dança da luz com a sombra, a travessia que nos lembra que a centelha que somos nunca se apagou.
Tudo começa antes do começo —
num útero de silêncio onde o tempo ainda é feto,
enroscado no colo negro e dourado do Infinito.
Ali, uma centelha não nasce: recorda-se.
Respira sem pulmões,
palpita sem coração,
brilha sem chama.
Essa centelha és tu,
antes debaixo de sete véus de esquecimento.
Esse silêncio é o teu nome antes dos nomes.
E esse nome, proibido de ser pronunciado,
canta-te através dos milénios
como um sino que nunca foi fundido.
Há um Código de Luz tatuado
no osso mais íntimo da alma —
não com tinta, mas com ausência de sombra.
Não se lê: reconhece-se
no instante em que o olhar interno
se despe da última mentira consentida.
Esse Código não tem letras.
Tem portas.
E cada porta abre para dentro de outra porta,
até que o dentro e o fora
se beijem na mesma boca de luz.
Para escutarmos esse sussurro primordial,
descemos.
Não caímos — descemos com memória.
Entramos no grande teatro de argila e sangue,
no labirinto onde os espelhos mentem por piedade.
Trazemos nas costas
as cicatrizes de estrelas extintas,
os juramentos quebrados de deuses menores,
as lágrimas cristalizadas de civilizações
que acreditaram que o fim era possível.
Nas regiões mais densas dançam, lentos,
os três Guardiões de Chumbo:
A Matéria — mãe severa que nos embala e sufoca,
O Erro — amante cruel que nos ensina com beijos de faca,
As Cadeias — joalheiros que forjam elos de ouro falso
para que, um dia, possamos sentir o peso
e desejar a leveza com toda a força do desespero.
Eles não são carcereiros.
São parteiros disfarçados de algozes.
Cada golpe que dão
é um cinzel que retira o excesso de mim
até que sobre apenas o que nunca precisou ser esculpido.
Acima — ou talvez dentro, mais fundo que o fundo —
brilha a Trindade de Fogo Transparente:
O Espírito que conhece o nosso nome secreto
e o guarda como quem guarda uma brasa no peito,
A Verdade que não precisa falar porque já é o próprio silêncio ouvindo-se,
As Asas que nunca se dobraram,
mesmo quando fingimos ser apenas corpos que caminham.
Entre o abismo de baixo e o abismo de cima
caminhamos suspensos por um fio de luz
que ninguém vê,
mas que todos somos.
Ver de verdade exige o Grande Desnudamento.
Não é tirar roupa — é tirar história.
Despir o eu que nos emprestaram,
descoser as medalhas de sofrimento alheio,
arrancar as coroas de vítima e de salvador...
Raspar, com unhas de diamante,
as sete camadas de tinta com que pintaram o real:
a tinta da culpa,
a tinta do medo,
a tinta do orgulho,
a tinta do tempo,
a tinta do nome,
a tinta do desejo,
a tinta do próprio eu.
Quando a última película cai,
o mundo aparece nu,
tremendo de pudor e de glória,
como uma criança que acabou de nascer
e já se lembra de tudo.
Então, sem aviso, sem fanfarra,
o Amor desponta — não chega: irrompe de dentro.
O Amor não é sentimento.
É o estado natural do Ser quando deixa de fingir que está separado.
É um fogo que não consome lenha,
uma luz que não projeta sombra,
um som que se ouve com a pele.
Sob a sua regência,
o coração deixa de bater:
começa a ressoar.
Torna-se catedral sem paredes,
templo cuja abóbada é o próprio céu interno.
Nesse trono sem pernas,
sem cetro,
sem súditos,
o Amor senta-se —
e, ao sentar-se,
o universo inteiro cabe dentro de um único peito
sem ficar apertado.
Então sentimos, sem palavras,
o sopro de Deus
não passando por nós —
mas sendo nós,
enquanto passamos.
Sentimos os mundos invisíveis
reorganizando as nossas vísceras
como quem arruma flores num vaso de carne.
Sentimos o Cosmos
encolher-se de ternura
e deitar a cabeça no nosso colo
para dormir o sono dos bem-aventurados.
A partir desse instante sem relógio,
nada volta a ser o que parecia.
A paz já não é ausência de guerra —
é a presença tão absoluta da Luz
que a guerra se esquece de que um dia existiu.
Essa paz não se guarda:
transborda como um rio que descobriu o mar dentro de si.
Toca mãos que já não precisam pedir,
olhares que já não precisam procurar,
palavras que já não precisam convencer.
Um ser assim pacificado
torna-se um sol subterrâneo.
Não brilha para ser visto —
brilha porque não consegue deixar de brilhar.
E o seu brilho silencioso
acende, sem intenção,
outro coração,
e outro,
e outro,
numa corrente de chamas frias
que não queimam a matéria,
mas consomem a ilusão.
Porque a salvação do mundo
nunca foi coletiva no sentido de massa —
é coletiva no sentido de contágio de despertar.
Um único olhar que se lembra
faz tremer a teia inteira.
Uma única alma que volta para casa
arrasta, sem querer,
milhões de almas adormecidas
pelo simples facto de ter aberto a porta.
E assim seguimos,
véu após véu,
luz após luz,
morte após morte,
renascimento após renascimento,
até que o humano, enfim,
se lembre de que nunca deixou de ser
o próprio Mistério
disfarçado de peregrino.
Om shanti shanti shanti —
Que a tua centelha reencontre a Foguera Una
e, reencontrando,
se torne a Foguera
que reacende o caminho de todos
sem nunca se apagar.
Axé. Shalom. Assim é.
