domingo, 5 de outubro de 2025

Om shanti!

 Buscadores da paz, bem-vindos — 
neste som há mais que notas:
 há uma lembrança do que somos.

Schubert, Trio No. 2, Op. 100, 

Andante con moto

*

No sopro calmo do piano em bruma,

Schubert sussurra o que a alma escuta —

não há dor, só a forma mais pura

do tempo que dentro de nós flutua.


Cada acorde, um espelho velado,

onde o eu se dissolve, encantado;

e o silêncio — tão cheio de essência —

é abrigo, é pausa, é consciência.


Na melodia que em si se encerra,

ressoa o céu, o abismo, a terra.

E no compasso que tudo conduz,

a alma caminha de volta à luz.

Namastê, buscadores!

O Livro e a Memória dos Muitos 

Ler é sair de si, rasgar o instante,

Viajar sem mover o corpo ao chão,

Tocar o eterno, o santo e o profano,

Num mundo que se dobra em cada mão.


A página é espelho e abismo aberto,

Mistura de silêncio e explosão.

O tempo curva, o espaço se faz perto —

O olhar desperta a alma da prisão.


Há feitiço que, lido sem alma,

Se volta contra quem ousa decifrá-lo.

Versos tomados sem rito viram sombra no espírito.

Nem todo verbo é cura —

Há os que, mal evocados, sangram em silêncio.


Ou seja:

Ler sem reverência é sorver oráculo em taça rachada.

Mas há sabor nas frases escolhidas

Por quem lê com sede verdadeira.


Ler é rito, é brasa antiga em chama,

Guardada em rochas, runas, papiros, telas;

É o sussurro dos deuses entre páginas quietas,

É a alma do mundo que em nós se derrama.


O livro é um portal — não fuga, mas retorno:

A si, ao outro, ao Todo que pulsa oculto.

Cada palavra é um astro em seu contorno,

Cada parágrafo, um oráculo adulto.


Quem lê com o espírito aberto

Ouve vozes que o tempo não cala:

A dor dos que vieram,

O sonho dos que virão,

E a centelha sagrada que tudo embala.


Na leitura, o humano se refaz e se descobre:

Não mais bicho apenas — mas símbolo, ponte, busca.

Um ser que ama, pensa, duvida, se encanta;

Onde o barro vira estrela,

E a dúvida, dança.


Ler não é só saber — é ser.

É expandir os limites da pele e do nome,

É morrer por instantes, renascer outro:

Mais vasto, mais livre — menos homem, mais cosmos.


Ler é magia que nos salva do esquecimento,

É o eco do infinito querendo ser dito,

E o humano, finito, buscando o eterno.


O livro não guarda só o que um pensa,

Mas o que muitos foram —

O que um povo sonhou,

O que a dor calou,

O que a esperança escreveu à beira do abismo.


Na tinta repousa o grito dos silenciados,

E na margem, a presença dos esquecidos.

Cada página é eco que atravessa séculos,

Cada frase, um fio da tapeçaria humana.


Ler é mais que um ato íntimo —

É participar de uma vigília ancestral.

É sentar-se junto ao fogo dos antigos,

Ouvir as histórias que moldaram os nomes,

E manter viva a memória que o tempo tenta apagar.


Pois, quando um livro se abre,

Mil vozes se levantam:

Vozes que não morrem enquanto forem lidas.


E o leitor se torna ponte,

Arquivo vivo,

Cúmplice da eternidade.


Quem lê com o coração atento

Carrega mais que palavras:

Carrega os séculos nos ombros,

Os exílios nos olhos,

As revoluções nas entrelinhas.


E, no gesto silencioso de folhear,

Há um pacto sagrado:

Lembrar,

Honrar,

Transmitir.

Pósfácio:

Livro é, acima de tudo, um espelho coletivo.

Não reflete apenas quem escreve,

mas conserva os traços, feridas e visões de civilizações inteiras.

Em cada biblioteca repousa o coração da história humana —

suas glórias, suas quedas, sua busca por sentido.

Ler é continuidade:

não apenas recebemos o passado — o reativamos.

 

Que a chama do verbo siga acesa.