“Aqui, do outro lado do rio, há uma montanha que guarda a nossa aldeia. Hoje ela amanheceu coberta de nuvens, caiu uma chuva e agora as nuvens estão sobrevoando seu cume. Olhar para ela é um alívio imediato para todas as dores. A vida atravessa tudo, atravessa uma pedra, a camada de ozônio, geleiras. A vida vai dos oceanos para a terra firme, atravessa de norte a sul, como uma brisa, em todas as direções. A vida é esse atravessamento do organismo vivo do planeta numa dimensão imaterial. A vida que a gente banalizou, que as pessoas nem sabem o que é e pensam que é só uma palavra. Assim como existem as palavras “vento”, “fogo”, “água”, as pessoas acham que pode haver a palavra “vida”, mas não.
Vida é transcendência, está para além do dicionário,
não tem uma definição.”
– Ailton Krenak, do texto “Não se come dinheiro”, no livro “A vida não é útil”.
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“Nós estamos, devagarzinho, desaparecendo com os mundos que nossos ancestrais cultivaram sem todo esse aparato que hoje consideramos indispensável. Os povos que vivem dentro da floresta sentem isso na pele: veem sumir a mata, a abelha, o colibri, as formigas, a flora; veem o ciclo das árvores mudar. Quando alguém sai para caçar tem que andar dias para encontrar uma espécie que antes vivia ali, ao redor da aldeia, compartilhando com os humanos aquele lugar. O mundo ao redor deles está sumindo. Quem vive na cidade não experimenta isso com a mesma intensidade porque tudo parece ter uma existência automática: você estende a mão e tem uma padaria, uma farmácia, um supermercado, um hospital. Na floresta não há essa substituição da vida, ela flui, e você, no fluxo, sente a sua pressão. Isso que chamam de natureza deveria ser a interação do nosso corpo com o entorno, em que a gente soubesse de onde vem o que comemos, para onde vai o ar que expiramos. Para além da ideia de “eu sou a natureza”, a consciência de estar vivo deveria nos atravessar de modo que fôssemos capazes de sentir que o rio, a floresta, o vento, as nuvens são nosso espelho na vida. Eu tenho uma alegria muito grande de experimentar essa sensação e fico procurando comunicá-la, mas também respeito o fato de que cada um tem a sua passagem por este mundo.”
- Ailton Krenak, do texto "A vida não é útil", no livro
"A vida não é útil". Companhia das Letras, 2020.
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"A nossa mãe, a Terra, nos dá de graça o oxigênio, nos põe para dormir, nos desperta de manhã com o sol, deixa os pássaros cantar, as correntezas e as brisas se moverem, cria esse mundo maravilhoso para compartilhar, e o que a gente faz com ele? O que estamos vivendo pode ser a obra de uma mãe amorosa que decidiu fazer o filho calar a boca pelo menos por um instante. Não porque não goste dele, mas por querer lhe ensinar alguma coisa. “Filho, silêncio.” A Terra está falando isso para a humanidade. E ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. Ela simplesmente está pedindo: “Silêncio”. Esse é também o significado do recolhimento."
- Ailton Krenak, no livro "O amanhã não está à venda".
Companhia das Letras, 2020.
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"Para algumas pessoas, a ideia de sonhar é abdicar da realidade, é renunciar ao sentido prático da vida. Porém, também podemos encontrar quem não veria sentido na vida se não fosse informado por sonhos, nos quais pode buscar os cantos, a cura, a inspiração e mesmo a resolução de questões práticas que não consegue discernir, cujas escolhas não consegue fazer fora do sonho, mas que ali estão abertas como possibilidades."
- Ailton Krenak, da conferência "Do sonho e da terra", no livro "Ideias para adiar o fim do mundo". Companhia das Letras, 2019.

Ailton Krenak | foto acervo Elástica.
OBRAS DE AILTON KRENAK
Livros
:: O lugar onde a Terra descansa. Ailton Krenak. [fotografias de Adriana Moura, Zaida Siqueira, Igor Pessoa e José Caldas]. Rio de Janeiro: ECO Rio/Núcleo de Cultura Indígena, 2000.
:: Ailton Krenak: encontros. [organização de Sergio Cohn; apresentação Eduardo Viveiros de Castro]. Coleção Tembetá. Rio de Janeiro: Azougue, 2015. {a obra reúne uma série de entrevistas concedidas por Krenak entre 1984 e 2013; e o discurso na Constituinte, no Congresso Nacional, em 1987}. Disponível no link. (acessado em 9.9.2021). :: Ideias para adiar o fim do mundo. Ailton Krenak. [capa Alceu Chiesorin Nunes]. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
:: Ideias para adiar o fim do mundo. Ailton Krenak. .. [posfácio de Eduardo Viveiros de Castro; capa Alceu Chiesorin Nunes]. Nova edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2ª ed., 2020.
:: O amanhã não está à venda. Ailton Krenak. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. {disponível em e-book grátis no link.}. :: A vida não é útil. Ailton Krenak. [pesquisa e organização de Rita Carelli; capa Alceu Chiesorin Nunes]. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
Caderno educativo em e-book
:: Caminhos para a cultura do Bem Viver. Ailton Krenak. [org. Bruno Maia; ilustração de capa Bruno Big]. Rio de Janeiro: Cultura do Bem Viver/Escola Parque, 2020. Disponível no link. (acessado em 13.9.2021).