Om shanti!
por Kiran Coyote
(Brahma Kumaris)
O poder de julgar nos permite tomar decisões rápidas, claras, precisas e imparciais. O julgamento correto acontece após a avaliação e não é influenciado pela situação, emoções ou pelas opiniões dos outros. O julgamento real é autêntico e possui três dimensões. Primeiro eu avalio uma situação para ver qual é a resposta necessária. Então, eu não julgo as pessoas, mas julgo as ações de acordo com a justiça ou qualidade, ética ou valores. Por fim, eu julgo a mim mesmo – não para punir, mas para me assegurar que meus pensamentos, palavras e ações são da mais alta qualidade e dessa forma agrego benefícios para a cena em que me encontro.
Você tem medo de tomar decisões? Você se preocupa se as decisões as quais toma são de fato boas decisões? Você acha difícil decidir, especialmente sob pressão do tempo ou circunstâncias? Você não está sozinho!
Vamos encarar os fatos: As decisões da vida são raramente vistas a preto e branco, como sim ou não, boa ou ruim, certo ou errado. Se fossem, a vida seria muito mais simples. A moralidade seria apenas um livro de regras; dilemas éticos deixariam de existir; nós não falaríamos sobre consciência ou moral. Se nossas decisões significassem apenas a escolha entre “uma ou outra”, então não precisaríamos das capacidades extraordinárias de avaliação sutil, de análise, raciocínio e sensibilidade moral que nos definem como seres humanos e que nos distinguem das outras espécies.
O bom julgamento - ou habilidade de julgar com sabedoria - é o sexto poder espiritual da nossa série sobre os “Oito Poderes da Alma."
O poder do bom julgamento nos ajuda a perceber quando uma ação é apropriada e relevante, como também a frequência pela qual devemos realizá-la. Somos exigidos a avaliar, a “pesar” as opções. É desta forma, então, que ele é frequentemente simbolizado pela balança da justiça.
É um poder que depende muito do quinto poder - o poder do discernimento – o qual vimos anteriormente. Somente quando você tiver claramente discernido sobre a natureza de algo você poderá anunciar um julgamento correto ou uma decisão sobre isso.
Mesmo em casos precisos (como aquelas decisões “a preto e branco” da vida), você poderá até discernir sobre a melhor coisa a fazer, mas ainda sim opta por outra, porque:
• Hesita entre sua opinião e pela opinião dos outros;
• Se deixa influenciar por tendências arraigadas ou crenças tradicionais;
• Assusta-se com possíveis consequências;
Em outras palavras, enquanto você e eu possuirmos a habilidade de julgar (e somos rápidos em fazer isso) sentiremos frequentemente a falta do poder do bom julgamento. Isto explica por que as decisões que você toma, as escolhas que você faz, podem não necessariamente refletir sua clareza de percepção e discernimento; podem não resultar em você estar seguindo a sua própria verdade, agindo de acordo com seu próprio interesse, ou se comportando de acordo com seus valores e princípios.
O Poder do Bom Julgamento é algumas vezes também chamado de “O Poder de Decisão”. A decisão manifesta-se em uma ação – quer seja a decisão de dirigir seus pensamentos numa direção diferente, a decisão de segurar a língua quando necessário, a decisão de colocar o dinheiro no banco em vez de gastá-lo, ou até mesmo a decisão de simplesmente não fazer nada (a “não ação” é sem dúvida uma outra forma de ação; em alguns casos pode até ser preferível à reação). Talvez você, assim como eu, tenha feito sua lista de resoluções de ano novo; decisões para mudar alguma coisa em sua vida – desistir de um mau hábito, ou começar um novo programa de exercícios – e falhou por não conseguir cumpri-las.
A falta de ação é outro indicador de que está faltando o bom poder de julgamento, pois julgamento sem aplicação se torna ineficiente, impotente. Nos sistemas judiciais do mundo, o que aconteceria se os juízes anunciassem suas decisões e as sentenças nunca fossem implementadas? O caos se instalaria e, consequentemente, a lei não seria respeitada. Da mesma forma, sempre que eu não seguir minhas decisões, minha autoconfiança e meu autorrespeito se enfraquecerão.
A boa notícia é que a simples escolha de praticar a meditação Raja Yoga regularmente é uma decisão que reforça a minha vontade e minha determinação. Se existe um hábito do passado de estar fazendo uma ação errada e agora ao invés de praticar tal ação eu decida em favor da ação correta – o poder e a força de caráter aumentarão dentro da alma. Aqui segue um simples exemplo: levantar cedo para meditar. Minhas tendências passadas me dizem para continuar na cama. Quando eu me deixo vencer por elas eu perco meu poder; entretanto, se eu me recusar a ouvi-las e em vez disso me levantar, me tornarei mais forte por isso.
As decisões se tornam muito mais complicadas quando as escolhas não são claras – quando as decisões são vistas como “Certas versus Certas” ao invés de “Certas versus Erradas”. Por exemplo: a maioria de nós valoriza muito a
honestidade e a integridade. Outro valor fundamental para a maioria de nós é cuidar de nossos entes queridos com responsabilidade. No entanto, qual decisão você toma caso se encontre numa situação em que esses valores se
chocam? Quando, por exemplo, por agir de forma honesta você coloca as pessoas que ama em risco?
O respeito à lei e a compassividade são dois valores que podem contrapor-se em algumas situações: será você rigorosamente faz cumprir a lei em sua família ou no seu trabalho? Ou ainda, quando uma má ação vem à luz, será
que circunstâncias extenuantes algumas vezes sugerem a necessidade de misericórdia e compaixão?
Em uma escala global, dilemas como estes podem trazem enormes consequências: Por exemplo, está correto se concentrar nas necessidades imediatas da população global (cada vez mais crescente) em se tratando de moradia e alimentação, e está também correto dar igual atenção para o impacto que tais esforços podem produzir sobre a sustentabilidade ambiental da humanidade ao longo prazo. Contudo, e se a pressão do tempo ou a realidade econômica não permitirem realizar ambos?
Rushworth M. Kidder, fundador do instituto Ética Global e autor do livro How Good People make Tough Choices - Simon&Schuster, 1995 - (Tradução livre: Como pessoas boas fazem escolhas difíceis) identificou quatro grandes categorias entre o “certo” versus “os dilemas certos” que frequentemente carregam um elevado grau de ambiguidade e, portanto, exigem o uso de julgamento sensato. São eles:
• Verdade versus lealdade: Você sempre diz a verdade? E quando você está sendo pressionado a revelar algo que você prometeu não revelar? Será que você não vê nenhum problema em algumas vezes comprometer sua honestidade e sua integridade com o objetivo de manter seus compromissos, cumprir suas responsabilidades ou manter suas promessas?
• Longo prazo versus curto prazo: Será que você poderia desorganizar a vida dos membros de sua família e submetê-los a dificuldades e inconvenientes a fim de melhorar em sua carreira, decisão que, a longo prazo, irá proporcionar maiores oportunidades para seus filhos?
• Individual versus comunidade: Você, em circunstâncias excepcionais, escolheria violar o direito individual à privacidade a fim de proteger a comunidade de, por exemplo, terroristas ou agressores sexuais?
• Justiça versus clemência: Você suspenderia da escola um jovem ofensor e o colocaria atrás das grades ou providenciaria aconselhamento? E se somente você estiver inclinado à misericórdia, mas os outros não? Existem alguns valores fundamentais comuns geralmente aceitos que são responsáveis por guiar nossas decisões “certas versus erradas”, e que são sustentados pelas tradições de fé do mundo:
• Não mate ou mutile; respeite a vida.
• Não minta ou pratique fraude; seja honesto e justo.
• Não trapaceie, não roube ou prive.
• Não se envolva em adultério ou comportamento imoral; seja fiel, amoroso e moral.
• Obedeça à lei, cumpra suas responsabilidades; seja responsável, fidedigno e confiável.
Entretanto, no caso dos dilemas mais complexos - certos versus certos dilemas - como você decidiria? Você toma uma decisão que poderá beneficiar um maior número de pessoas? Ou você se mantém preso aos seus princípios, independentemente do resultado, concluindo que, obedecendo aos seus princípios terá um bem maior no seu caminho. Ou então, você aplica a Regra de Ouro, se colocando no lugar do outro e toma decisão considerando este princípio? Mesmo a base do seu processo de tomada de decisão exige um julgamento sensato. O Sr. Kidder identifica os princípios básicos de tomada de decisão conforme segue abaixo:
1- Baseado no cuidado: Fazer apenas o que você não se importaria se alguém fizesse a você.
2- Baseado em regra: Agir apenas de forma que gostaria que os outros também seguissem.
3- Baseado no final: Fazer o que poderá produzir benefícios para a maioria das pessoas.
Estes três princípios podem nos ajudar a pensar sobre as consequências das nossas ações. Em alguns casos (particularmente o dilema entre justiça versus clemência), o motivo, a intenção e as circunstâncias que envolvem a injustiça devem ser considerados também. O Sr. Kidder nos mostra nove “pontos de inspeção” para resolver os dilemas éticos os quais achei úteis:
1- Primeiro, certifique-se que você está lidando com um dilema ético ao invés de um simples conflito de valores culturais, sociais ou financeiros.
2- Identifique se você está somente envolvido ou se você está na verdade moralmente responsável e apto para agir a fim de influenciar o resultado da situação.
3- Certifique de que você possui fatos verdadeiros: como as coisas ocorreram desde o início até o ponto atual, quem estava envolvido, o que foi dito ou não, quais são as possíveis consequências para o futuro.
4- Teste se é um caso entre “certo versus errado” ou “certo versus certo”. Sua decisão será a de violar a lei? Isto perturbaria sua consciência? Se a sua decisão fosse feita pública, tal situação poderia lhe causar algum desconforto? Isto poderia também ser feito por uma pessoa a qual você tem grande consideração?
5. Se é realmente um dilema ético, identifique qual dos quatro tipos de dilemas descritos acima se encaixa?
6- Tente aplicar os três princípios básicos mencionados acima para resolver o dilema. Qual é o mais relevante?
7- Veja se é possível “pensar fora da caixa” e chegar a um acordo entre os dois “certos”.
8- Exercite sua coragem moral e tome a decisão.
9- Frequentemente reavalie sua decisão a fim de reforçar e aperfeiçoar o seu bom julgamento.
No meu próprio caminho espiritual encontrei as análises e os “pontos de inspeção” mencionados pelo Sr. Kidder reafirmados e reforçados por muitos dos ensinamentos do Raja Yoga. Diariamente sou confrontado com desafios éticos que podem ser pequenos e sutis: Será que é uma atitude egoísta se distanciar um pouco da minha vida familiar para meditar e desenvolver-me espiritualmente ou eu deveria sacrificar estes esforços em favor do serviço? Será que é melhor lidar com questões e conflitos imediatamente ou esperar até que surja um momento adequado, esperar até que o tempo traga uma maior clareza e difunda algumas das cargas emocionais - especialmente quando a demora significar que todos os envolvidos deverão tolerar a falta de resolução?
Devo ser compassivo e tolerante comigo mesmo quando cometer algum erro ou devo me disciplinar de alguma forma? Estou sendo verdadeiramente honesto comigo mesmo? Ou estou permitindo lealdade a velhas tendências, velhas crenças que influenciam ainda minhas decisões?
Quando o poder do Bom Julgamento é aplicado para si mesmo, isto não é feito com o objetivo de criticar ou punir a si mesmo, mas sim para garantir que nossos pensamentos, palavras e ações sejam consistentemente de alta qualidade e adequados a cada situação. Algumas perguntas para refletir: eu considero as motivações, bem como as consequências das minhas decisões? Eu favoreço um princípio da tomada de decisão sobre os outros? O quanto me tornei corajoso moralmente? Quando tomo uma decisão, será que eu a sigo até o fim?
O Raja Yoga tem me ensinado a usar o poder do bom julgamento para julgar o comportamento ao invés de julgar as pessoas; julgar ações ao invés dos indivíduos - para a justiça ou para apropriabilidade, para ética ou valor. Com um estado de mente imparcial, se eu me deparar com alguém fazendo algo errado de acordo com as leis universais, valores ou códigos de conduta, posso então aprender a usar o Poder do Bom Julgamento para me ajudar a avaliar se esta pessoa percebe que está agindo de forma errada. Se assim for, posso mostrar sentimentos de compaixão e tentar inspirar-lhe, através do meu próprio exemplo ou até mesmo como um treinamento, “coaching”, para tentar mudar o comportamento. Se ele/ela não percebe a imprecisão ou inadequação do comportamento, se não está fazendo nenhum esforço para superar a fraqueza, se está tentando afirmar como certo o que está errado, posso então sutilmente incentivá-lo(a) a ter a realização do erro, gerando respeito e bons votos para com o indivíduo.
Desta forma, os pratos da balança de bom julgamento permitem o equilíbrio entre o amor e a lei, ou seja, a aplicação de leis e disciplinas que me mantém “dentro dos limites” ou códigos de conduta adequado, bem como simultaneamente expressando amor espiritual para todos.
Considerando que todas as ações apresentam dois lados, o Poder do Bom Julgamento me permite dar uma pausa na confluência entre ambos, e então, julgar ao invés de inclinar para algum dos lados. Aprendo assim a me manter alheio e amoroso, o qual é o objetivo de todas as práticas espirituais.
Brahma Kumaris World Spiritual Organization
Fonte: http://www.brahmakumaris.org
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Citações parciais para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.
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