O poema sobre a emigração de Lao-tsé e o surgimento do livro Tao Te Ching foi escrito em maio de 1938. Brecht o colocou na terceira parte - chamada "Crônicas" - do volume “Poemas de Svendborg”, publicado em Copenhague, por iniciativa de Ruth Berlau, sua colaboradora dinamarquesa, em 1939. A grande maioria dos Poemas de Svendborg, organizados em seis seções, caracteriza-se pela ausência de rimas e de ritmos regulares. O poema sobre Lao-tsé, no entanto, destaca-se dos demais justamente pela sua regularidade formal: compõe-se de 13 estrofes de cinco versos estruturados em ritmo e com esquema de rima ababb. A tradução que se segue é literal e procura corresponder, na medida do possível, à sugestão de Brecht de conservar ao menos a fidelidade aos "pensamentos" e à "postura" do poeta. Isso não significa, evidentemente, afastar a possibilidade de uma tradução mais bem elaborada, que dê conta também da estrutura de ritmo e rima do original alemão.
Lenda sobre o surgimento do livro Tao Te Ching durante o caminho de Lao-tsé à emigração para a Índia sobre o lombo de um boi:
1 Quando estava com setenta anos e alquebrado,
o Mestre ansiava mesmo era por repouso,
pois a bondade, mais uma vez, se enfraquecera no país,
e a maldade mais uma vez ganhara força.
E ele amarrou o sapato...
2 E juntou ele o de que precisava: pouco.
Mas, mesmo assim, isso e aquilo.
Como o cachimbo, que ele sempre fumava à noite
e o livrinho que sempre lia.
Pão branco sem muito calcular.
3 Alegrou-se do vale ainda uma vez e o esqueceu,
quando, pela montanha, o caminho enveredou.
E o seu boi se alegrou da grama viçosa,
mastigando, enquanto carregava o velho,
pois, para ele, ia-se depressa o suficiente.
4 Mas, no quarto dia, numa penedia,
um aduaneiro barrou-lhe o caminho:
"Bens a declarar?" - "Nenhum."
E o menino, que conduzia o boi, falou: "Ele ensinou."
E assim também isso ficou explicado.
5 Mas o homem, tomado por alegre impulso,
ainda perguntou: "E o que ele tirou disso?"
Falou o menino: "Que a água mole em movimento
vence, com o tempo, a pedra poderosa.
Tu entendes, o que é duro não perdura."
6 Para que não perdesse a última luz do dia,
o menino foi tocando o boi...
E os três já desapareciam atrás de um pinheiro escuro
quando, de repente, deu um estalo no nosso homem
e ele gritou: "Ei, tu! Alto lá!
7 O que está por trás dessa água, velho?"
Deteve-se o velho: "Isso te interessa?"
Falou o homem: "Eu sou apenas guarda de aduana,
mas, quem vence a quem, isto também a mim interessa!
Se tu o sabes, então fala!
8 Anota-o para mim! Dita-o a este menino!
Coisa dessas não se leva embora consigo.
Papel há em casa, e também tinta,
e um jantar igualmente haverá: ali moro eu.
E então, é a tua palavra?"
9 Por sobre o ombro, o velho mirou o homem:
jaqueta remendada. Descalço.
E a testa, uma ruga só.
Ah, não era um vencedor que dele se acercava.
E ele murmurou: "Também tu?"
10 Para recusar um pedido gentil,
o velho, como parecia, já estava demasiado velho.
Então, disse em voz alta: "Os que algo perguntam, merecem resposta."
Falou o menino: "Também vai ficando frio."
"Está bem, uma pequena estada."
11 E o sábio apeou do seu boi.
Por sete dias, escreveram a dois.
E o aduaneiro trazia comida
(e, nesse tempo todo, apenas praguejava baixo com os contrabandistas).
E então, chegou-se ao fim.
12 E o menino entregou ao aduaneiro,
numa manhã, oitenta e uma sentenças.
E, agradecendo um pequeno presente,
entraram pelos rochedos atrás daquele pinheiro.
Dizei agora: é possível ser mais gentil?
13 Mas não celebremos apenas o sábio,
cujo nome resplandece no livro!
Pois, primeiro, é preciso arrancar do sábio a sua sabedoria.
Por isso, agradecimento também se deve ao aduaneiro:
ele a extraiu daquele.