domingo, 23 de junho de 2019

Om shanti!

"No caminho da sabedoria, te ensinei 
E pelas veredas da retidão te fiz andar."
(Provérbios 4:11)
"Aquele que vive com medo, não pode chegar
a ser forte. O poder da consciência pode ser
ganho só se se vive sem medo."
*
"Trata o difícil enquanto ainda for fácil.
Trata o grande enquanto ainda for pequeno.
Todas as coisas do mundo, considera-as como maiores.
Enquanto, todavia, permanecem pequenas..."
*
(Verso 4)
"O Tao é vazio inesgotável
E a fonte do profundo silêncio.
Que o uso jamais desgasta,
É como uma vacuidade.
A origem de todas as plenitudes do mundo.
Desafia a inteligência aguçada
Unifica todas as diversidades
Desfaz as coisas emaranhadas.
Funde em uma só todas..."
(Tao Te Ching)
*
"O sábio pode descobrir o mundo
sem transpor a sua porta.
Vê sem olhar, realiza sem agir."
(Lao-Tsé)


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Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

Dom Quixote de La Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha, no original) é uma obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes, publicada em duas partes. A primeira surgiu em 1605 e a segunda dez anos depois, em 1615. Quando o livro foi traduzido para inglês e francês obteve um êxito súbito, arrebatando leitores de diversas origens.

Considerada a maior obra da literatura espanhola e o segundo livro mais lido da História, seu contributo para a cultura ocidental é incalculável. Dom Quixote é apontado como o primeiro romance moderno, tendo influenciado várias gerações de autores que se seguiram.

As suas personagens parecem ter pulado do livro para o imaginário contemporâneo, sendo representadas através de diversos meios (pintura, poesia, cinema, música, entre outros).

Resumo
A obra narra as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. Consegue também um escudeiro, Sancho Pança, que resolve acompanhá-lo, acreditando que será recompensado.

Quixote mistura fantasia e realidade, se comportando como se estivesse em um romance de cavalaria e transformando obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.

É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de "Cavaleiro da Fraca Figura", mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.

Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos e familiares.
Enredo
Ilustração de Gustave Doré, 1863.
Quixote, Dore
Primeira parte
O protagonista é um homem de meia idade que se dedicava à leitura de romances de cavalaria. Confundindo fantasia e realidade, resolve imitar os heróis e partir em busca de aventuras. Como precisa de uma amada em nome da qual lutar, cria Dulcineia, grande dama inspirada em uma paixão da juventude.

Encontra um albergue simples que confunde com um castelo. Pensando que o dono é um cavaleiro disposto a ordená-lo, resolve guardar o lugar durante a noite. Quando um bando de camponeses se aproxima, pensa que são inimigos e os ataca, acabando machucado. Depois de uma falsa sagração, o dono do albergue o manda embora, dizendo que já é cavaleiro. Embora ferido, Quixote volta para casa feliz.

Convence Sancho Pança a se juntar na viagem como escudeiro, com promessas de dinheiro e glória. A sobrinha do protagonista fica preocupada com sua saúde mental e pede ajuda ao Padre, que o diagnostica como louco. Decidem queimar seus livros para resolver o problema, mas ele pensa ser obra de Frestão, seu inimigo feiticeiro.

Parte em busca de vingança e se depara com cenários do cotidiano que a sua imaginação transforma em adversários. Assim, luta contra moinhos de vento pensando que são gigantes e quando é empurrado por eles, declara que estavam encantados por Frestão. Passando por dois sacerdotes que carregavam a estátua de uma santa, pensa que está perante dois feiticeiros sequestrando uma princesa e resolve atacá-los. É durante esse episódio que Sancho o batiza de “Cavaleiro da Fraca Figura”.

Em seguida, tenta enfrentar vinte homens que aparecem para roubá-los e ambos acabam sendo espancados. Quando recuperam, encontram dois rebanhos que caminham em direções contrárias e estão prestes a se cruzar. Quixote imagina que são dois exércitos adversários e decide se juntar ao lado mais fraco. Sancho tenta chamar o amo à razão mas ele se recusa a escutar e acaba lutando com os pastores e perdendo até os dentes.

Depois se depara com um grupo de prisioneiros escoltados por guardas, que estavam sendo levados para campos de trabalho forçado. Vendo que estão acorrentados, questiona os homens acerca de seus crimes e todos parecem inofensivos (amor, música e feitiçaria, por exemplo). Decide que é preciso salvá-los e ataca os guardas, livrando os homens de suas correntes. Eles, no entanto, o agridem e assaltam.

Triste, Quixote escreve uma carta de amor para Dulcineia e manda Sancho entregar. No caminho, o escudeiro se depara com o Padre e o Barbeiro que o forçam a revelar o paradeiro do seu amo. O "Cavaleiro da Fraca Figura" é levado para casa mas persiste nas suas fantasias de cavalaria.

Wilhelm Marstrand, Don Quixote and 
Sancho Panza at a Crossroads, 1908.
Wilhelm Marstrand
Segunda parte
Logo regressa à estrada e, ao ver um grupo de atores ambulantes, pensar estar perante demônios e monstros, atacando-os. A cena é interrompida pela chegada de outro homem, o Cavaleiro dos Espelhos, que afirma que a sua amada é a mais bela e que está a disposto a duelar quem disser o contrário.

Para defender a honra de Dulcineia, enfrenta o adversário e vence o combate. Descobre que o Cavaleiro dos Espelhos era, na verdade, Sansão Carrasco, um amigo que estava tentando dissuadi-lo da vida de cavalaria.

Mais adiante, Quixote e Sancho conhecem um casal misterioso, o Duque e a Duquesa. Eles revelam que conhecem seus feitos através de um livro que circulava na região. Resolvem recebê-lo com todas as honras dignas de um cavaleiro, rindo das suas ilusões. Pregam também uma peça a Sancho Pança, nomeando o escudeiro para o cargo de governador de um povoado.

Exausto por tentar cumprir todas as obrigações do cargo, Sancho não consegue descansar nem desfrutar a vida, chegando a passar fome por temer o envenenamento. Depois de uma semana, resolve desistir do poder e voltar a ser escudeiro. Novamente reunidos, abandonam o castelo dos duques e partem a caminho de Barcelona. É aí que surge o Cavaleiro da Lua Branca afirmando a beleza e superioridade da sua amada.

Por amor a Dulcineia, o protagonista duela com o Cavaleiro da Lua, concordando em deixar a cavalaria e voltar para casa se perder. Quixote é vencido diante de uma multidão. O adversário era, mais uma vez, Sansão Carrasco, que montou um plano para salvá-lo de suas fantasias. Humilhado, regressa a casa mas acaba ficando doente e deprimido. No seu leito de morte, recupera a consciência e pede perdão à sobrinha e a Sancho Pança, que continua do seu lado até ao suspiro final.

Personagens
Dom Quixote
O protagonista é um fidalgo de meia idade, sonhador e idealista que te tanto ler romances de cavalaria e sonhar com feitos heroicos, perdeu a razão. Convencido de que é um cavaleiro andante, vive em busca de aventuras e duelos para provar o seu valor e a sua paixão por Dulcineia.

Sancho Pança
Um homem do povo, Sancho é ambicioso e se junta a Quixote em busca de dinheiro e poder. Realista, vê as fantasias de seu amo e procura ajudá-lo a encarar a realidade mas acaba se envolvendo nas suas confusões. Apesar de todas as falhas de Quixote, seu respeito, amizade e lealdade pelo cavaleiro se mantêm até ao final.

Dulcineia de Toboso
Fruto da imaginação de Quixote, Dulcineia é uma dama da alta sociedade, incomparável em beleza e honra. Inspirada na camponesa Aldonza Lorenzo, seu amor de juventude, a amada de Quixote é uma projeção das mulheres representadas nos romances de cavalaria. Querendo lutar por amor, o protagonista cria uma ligação platônica e indestrutível com essa figura.

Padre e Barbeiro
Por causa da preocupação de Dolores, a sobrinha de Quixote, estes dois personagens resolvem intervir e ajudar o amigo. Estão convencidos de que o homem teria sido corrompido pelas suas leituras mas, mesmo quando destroem sua biblioteca, não conseguem curá-lo.

Sansão Carrasco
Na tentativa de resgatar o amigo, Sansão precisa usar a loucura a seu favor. Assim, é através da cavalaria que consegue resolver a questão. Para isso, precisa se disfarçar e derrotar Quixote, diante de todos.

Análise da obra
Dom Quixote de La Mancha é um livro dividido em 126 capítulos. A obra foi publicada em duas partes, refletindo diferentes influências: a primeira se aproxima do estilo maneirista e a segunda do barroco.

Inspirado nos romances de cavalaria que já estavam caindo em desuso e no idealismo que atravessava as artes e as letras, Dom Quixote é, ao mesmo tempo, uma sátira e uma homenagem.

Misturando tragédia e comédia e combinando registros populares e eruditos de linguagem, esta é uma obra muito rica. A sua estrutura contribui em larga medida para a sua complexidade, criando várias camadas narrativas que dialogam entre si.

Na primeira parte, o narrador aponta que esta é a tradução de um manuscrito árabe, cujo autor é alguém chamado Cid Hamete Benengeli. Contudo, o narrador não se limita a traduzir, tecendo comentários e fazendo correções frequentemente.

Na parte seguinte, o protagonista e seu escudeiro descobrem a existência de um livro chamado O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha, onde seus feitos eram narrados. Encontram o Duque e a Duquesa, entre outros indivíduos, que tinham sido leitores de suas aventuras, passando também a ser personagens.

Romances de cavalaria e amor imaginário
O protagonista, de seu verdadeiro nome Alonso Quijano, é um homem cuja mente para ter sido "contaminada" pela leitura de romances de cavalaria. Assim, a leitura é apontada como uma atividade muito poderosa, capaz de mudar o comportamento de um indivíduo e até mesmo de o corromper.

Atraído pelos valores transmitidos nessas narrativas (glória, honra, coragem), Quixote troca o tédio da vida burguesa pelas aventuras da cavalaria. Tentando imitar seus heróis, precisa lutar para defender a honra de sua amada, correndo todos os riscos para conquistar seu coração. Cria, então, Dulcineia de Toboso.

É através desse amor imaginário que Quixote se mantem motivado e disposto a se reerguer vezes sem conta. Adotando uma postura petrarquista (sentimento amoroso como servidão), o protagonista justifica suas ações:

(...) o amor não mira cumprimentos nem guarda termos de razão em seus discursos, e tem a mesma condição da morte: que assim acomete os grandes palácios dos reis como as humildes cabanas dos pastores, e quanto toma posse de uma alma, o primeiro que faz é tirar o medo e a vergonha.

Deste modo, explica que a paixão é uma espécie de loucura permitida, graças à qual todas as pessoas perdem a razão. O seu sentimento platônico parece ser o mais duradouro, já que não se concretiza e, por isso, também não se deteriora com o tempo.

Dom Quixote e Sancho Pança
Um dos elementos que mais captam a atenção dos leitores é a relação entre Dom Quixote e Sancho Pança e a estranha simbiose que se forma entre eles. Apresentando visões opostas do mundo (espiritualista / idealista e materialista / realista), os personagens contrastam e se complementam simultaneamente, criando uma grande amizade.

Embora durante grande parte da narrativa Sancho seja a "voz da razão", procurando encarar todos os acontecimentos com bom senso e realismo, começa a ser contagiado pela loucura do seu amo. Inicialmente motivado pelo dinheiro, abandona sua família para seguir os delírios do cavaleiro.

Essa é uma das diferenças cruciais entre os companheiros: Quixote era um homem burguês, com condições financeiras que permitiam passear e viver aventuras. Sancho, pelo contrário, era um homem do povo, preocupado em sustentar a família e garantir o futuro.

Ambicioso, acredita nas promessas do cavaleiro e espera se tornar o governador de um reino conquistado por Quixote. Sua admiração e respeito pelo mestre vão crescendo e Sancho acaba virando um sonhador também:

Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo...

O seu desejo acaba sendo realizado quando o Duque e a Duquesa, que tinham lido sobre as aventuras e aspirações da dupla, resolvem pregar uma peça a Sancho. A ação que decorre na Ilha da Barataria é uma espécie de ficção dentro da ficção onde assistimos ao período em que o escudeiro é governador.

É interessante notar a racionalidade dos conselhos que Quixote dá ao seu amigo sobre as suas responsabilidades e a importância de manter uma conduta irrepreensível.

O que deveria ser uma brincadeira acaba funcionando e Sancho se revela justo e competente. No entanto, desiste depois de uma semana, infeliz e exausto. Percebe, então, que dinheiro e poder não são sinônimos de felicidade e sente saudades de sua família, decidindo regressar.

Imaginação como lente transfiguradora
Dom Quixote mistura e contrapõe fantasia e realidade, através do olhar do protagonista. Encarando os livros de cavalaria como um refúgio da vida banal e monótona, o cavaleiro utiliza a imaginação para reinventar o mundo que o rodeia. Criando inimigos e obstáculos a partir de objetos do cotidiano, ignora os contratempos da vida real.

Daumier Honore, 
Don Quixote, 1865 - 1870.
Daumuier, 1865 - 1870
De todos os seus duelos com adversários imaginários, se destaca a cena dos moinhos de vento: a imagem se tornou um símbolo para as causas impossíveis, para os idealistas e os sonhadores. Quixote, encarado por todos como um louco, pode ser apenas visto como um homem disposto a tudo para correr atrás dos seus sonhos.

Apesar da impossibilidade de ser um verdadeiro cavaleiro andante, o protagonista da obra vive sua utopia, através da fantasia e das aventuras que cria para si mesmo.

Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade.

O "Cavaleiro da Fraca Figura" vai mais longe, moldando e transformando também a realidade daqueles que o acompanham durante a viagem. Isso acontece com Sancho Pança, seu maior cúmplice, com o Duque e a Duquesa e também com os próprios leitores da obra.

Se no início achamos que ele é apenas um louco, aos poucos vamos reparando na sua sabedoria, na grandeza de seus valores e na sua estranha lucidez face ao resto do mundo.

Significado da obra
No final da narrativa, quando perde um duelo e é forçado a deixar a cavalaria, o protagonista fica deprimido e doente. Nesse momento, parece recuperar a consciência, percebendo que nunca foi um cavaleiro andante. Pede perdão à família e aos amigos, principalmente a Sancho, o fiel companheiro que arriscou a vida do seu lado.

Octavio Ocampo, 
Visions of Don Quixote, 1989.
Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989
A obra, no entanto, deixa o questionamento: será que Quixote estava realmente louco? Podemos argumentar que o "Cavaleiro da Fraca Figura" estava apenas vivendo do jeito que queria e mudando sua realidade, de forma a ser mais feliz e reencontrar a alegria e o entusiasmo.

Sua suposta loucura possibilitou aventuras que não viveria de outra forma, algo que fica claro no seu epitáfio:

Teve tudo em muito pouco / Porque viveu como um louco

O idealismo do protagonista, em contraste com a dureza da realidade, provoca gargalhadas e, simultaneamente, conquista a empatia do leitor. Através das várias peripécias e derrotas de Quixote, Miguel de Cervantes faz uma crítica à realidade política e social do seu país.

Na sequência do regime absolutista do rei Felipe II, a Espanha enfrentava uma fase de pobreza causada pelos gastos militares e expansionistas. Ao longo da obra, é notória a miséria dos vários indivíduos que enganam e roubam para sobreviver, contrastando em tudo com os heróis dos romances de cavalaria.

Assim, os comportamentos aparentemente tresloucados do protagonista podem ser interpretados como uma forma de protesto, de crítica social, na busca de valores que parecem perdidos ou ultrapassados.

Quixote inspira seus leitores a lutar pelo mundo no qual querem viver, lembrando que nunca devemos nos acomodar nem ignorar as injustiças.

Símbolo de sonhadores e idealistas ao longo dos séculos, o personagem representa a importância da liberdade (de pensar, ser, viver) acima de todas as outras coisas:

A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida...

Dom Quixote no imaginário contemporâneo

Pablo Picasso, Don Quixote, 1955.

Uma enorme influência para incontáveis romances que se seguiram, a obra de Miguel de Cervantes catapultou Dom Quixote e Sancho Pança para o imaginário contemporâneo. Ao longo de séculos, as figuras têm inspirado artistas das mais diversas áreas. Grandes pintores como Goya, Hogarth, Dali e Picasso representaram a obra de Cervantes, que também inspirou várias adaptações literárias e teatrais.

Na língua portuguesa, "quixotesco" se tornou um adjetivo atribuído a pessoas ingênuas, sonhadoras e com objetivos nobres. Em 1956, o pintor brasileiro Cândido Portinari lançou uma série de vinte e uma gravuras que retratam passagens marcantes da obra.
Cândido Portinari, Dom Quixote atacando um rebanho de ovelhas
Cândido Portinari, Dom Quixote 
atacando um rebanho de ovelhas, 1956.

Em 1972, Carlos Drummond de Andrade publicou um livreto com vinte e um poemas, baseados nas ilustrações de Portinari, entre os quais se destaca "Disquisição da Insônia":

"Que é loucura; ser cavaleiro andante
Ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
Vê o real e segue o sonho
De um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
E me sabendo tal, sem grão de siso,
Sou – que doideira – um louco de juízo."


Miguel de Cervantes 
Autor de Dom Quixote
(29 de setembro de 1547 - ‎22 de abril de 1616)
Foi um romancista, poeta e dramaturgo espanhol. Seu contributo para a literatura e o próprio idioma espanhol foi tão impactante que este é, muitas vezes, intitulado "a língua de Cervantes".
Retrato de Miguel de Cervantes pintado por Juan de Jauregu (1600).
Retrato de Miguel de Cervantes
pintado por Juan de Jáuregu (1600).

Foi também soldado e seu amor pelas armas parece surgir em algumas passagens de seu romance mais famoso, Dom Quixote de La Mancha. Publicou também Novelas exemplares (1613), Viagem de Parnaso (1614) e Oito comédias e oito entremezes novos nunca antes representados (1615). Depois de sua morte, foi publicada a obra Os trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617).

Fonte: https://www.culturagenial.com/livro-dom-quixote-de-miguel-de-cervantes/

Citações para estudo, de acordo como artigo 46, item III,
 da Lei de Direitos Autorais.
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 “TAO TE CHING” 
por Lao Tse
Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng
Sociedade Taoísta do Brasil 

INTRODUÇÃO
O Tao Te Ching é um texto profundo e ao mesmo tempo simples porque apresenta por meio da linguagem aquilo que se experimenta na sua ausência. A profundidade é o próprio caminho do mistério, a experiência do sagrado que corresponde à vivência espiritual. A simplicidade, um dos três tesouros 1 dos ensinamentos de Lao Tse, conduz à naturalidade que orienta o indivíduo no macrocosmo. Portanto, a leitura do Tao Te Ching implica um desafio: esvaziar-se e ser natural como a água que flui no vale. O desvendamento do texto deve fluir gradualmente, levando à contemplação de suas palavras. Se estas não parecem suficientemente claras, isso se deve ao fato de a sociedade contemporânea, na qual prolifera o pensamento, dificultar a ampliação da consciência. Nesse contexto, a contemplação já é por si um ato transgressor.

Esta tradução do Tao Te Ching, diretamente do chinês para o português, resgata a tradição taoísta e oferece a decifração necessária de conceitos fundamentais, respeitando a estrutura original do texto em chinês clássico em detrimento de frases mais convencionais em língua portuguesa. Desse modo, o leitor pode estabelecer nexos, coordenar e reconstituir relações entre os conceitos, traduzindo-os em experiências e proporcionando à leitura a suave alegria da vivência de um ensinamento.

Reverenciado como escritura sagrada pelos mistérios que revela, o ensinamento contido neste livro corresponde a uma tradição que integra filosofia, ciência e religião à experiência.

1 Os três tesouros segundo a tradição taoísta são: humildade, simplicidade e afetividade.

O termo taoísta é formado por dois ideogramas chineses: Tao que significa caminho, exprimindo a idéia de origem de todas as coisas; e Diao que significa ensinamento. Portanto, taoísmo corresponde à tradição que vem do passado, que revela a origem. Por isso, o Caminho da Imortalidade, objetivo dos taoístas, é denominado Via do Retorno, indicando a volta ao princípio. Nesse caminho, a virtude se efetiva através da mediação de consciência e da compreensão dinâmica do universo para resgatar a ordem natural da vida.

A escola taoísta tem como base o estudo de três obras, simbolizadas na imagem de uma árvore. A raiz é o I Ching – O Livro das Mutações, o tronco é o Tao Te Ching – Livro do Caminho e da Virtude e a flor é o Nan Hua Ching – O Livro da Flor do Sul. O Tao Te Ching é a estrutura central do taoísmo.

Lao Tse revela um ensinamento que abrange o tempo infinito. Lao Tse corresponde à transmissão e conservação da tradição taoísta na imagem do mestre, manifestação do absoluto.

Segundo o cânon taoísta, Lao Tse nasceu na província de Na Hue, na cidade de Guo Yang, no 25º dia da segunda lua do ano Ken-Tzen da era Wu-Tin (no período entre 1324 – 1408 A.C.). As circunstâncias do seu nascimento foram extraordinárias. De acordo com a tradição, sua gestação demorou oitenta e um anos. Lao Tse foi concebido quando sua mãe engoliu uma pérola de luz, transformação da Transparência Sublime 2 em sopro, através da essência do Sol. Seu pai era um famoso alquimista da dinastia San que ascencionou com mais de cem anos, envolvido pelos dragões celestiais. Sua mãe era considerada a encarnação do Sopro Yin do Céu-Anterior, sendo ao mesmo tempo sua mestra. Lao Tse nasceu do lado esquerdo das costelas da sagrada mãe, no jardim da família sob uma árvore de nome Li (ameixeira), com cabelos brancos e orelhas grandes. Por isso, recebeu o nome de Lao Tse (filho velho) e Li Er (orelha grande da ameixeira). Lao Tse tem também sentido de Senhor do Fim e do Princípio, já que velho representa o fim enquanto filho representa o início.

Sua juventude foi vivida no condado de K´u localizado entre Long San (Monte Dragão) e Guo Sue (Rio Guo). Quando o imperador tirano Zhou assumiu o poder, Lao Tse mudou-se para a região sul do Chi San, no território do Rei Wen, fundador da dinastia Chou. Foi convidado pelo rei Wen para ser responsável pela biblioteca real. Mais tarde, foi nomeado para o cargo de historiador real, permanecendo como tal até o 19º dia da quinta lua do 25º ano da era do rei Zhao, quando solicitou dispensa e retornou à sua terra natal, acompanhado do escudeiro Shü Jia. No mesmo ano, Lao Tse iniciou sua grande viagem para o ocidente, com intuito de chegar aos reinos da atual Índia, Afeganistão e Itália. Durante a viagem, permaneceu algum tempo na fronteira de Yü Men e aceitou o oficial-chefe da fronteira como discípulo. Ditou-lhe vários escritos, entre eles o Tao Te Ching. Muitos anos depois, teve sua ascensão no deserto de Gobi, durante a qual emanou raios de luz em cinco cores, transformando-se em corpo de luz dourada e desaparecendo no céu. Após sua ascensão, Lao Tse habitou o Tai Wei Gon (Palácio da Sublime Sutileza) do Céu-Anterior e dividiu seu corpo para retornar novamente à terra, encarnado como filho único do senhor 

2 A Transparência Sublime (Tai Chin): a Transparência de Jade (Yü Chin) e a Transparência Superior (São Chin) formam o conceito teológico de Absoluto taoísta.

Li Po Yang da província Shu. Na sua nova jornada veio acompanhado do dragão azul do Imperador Celestial Chin Hua, transformado em carneiro azul. Depois de uma longa peregrinação, seu discípulo Yi Shi, o oficial da fronteira, foi atraído por um carneiro de pêlo azul dourado. Yi Shi encontrou, na aldeia da família Li, a nova encarnação de Lao Tse. Diante de seu discípulo, a criança Lao Tse, de três anos de idade, revelou sua verdadeira imagem. Seu corpo cresceu, transformando-se em luz dourada branca. Cercado de inúmeros imortais celestiais, Lao Tse pronunciou mais um ensinamento: o Tratado Maravilhoso do Princípio Solar do Tesouro do Espírito (Ling Bao Yuan Yang Miao Ching). Após concluir seu ensinamento, os duzentos membros da família Li ascencionaram seguidos por Lao Tse e Yi Shi. Isso aconteceu no dia 28 de abril de 1118 A.C.

Depois do segundo nascimento e ascensão, Lao Tse ainda retornou inúmeras vezes para transmitir os ensinamentos e para ordenar as novas tradições. Por isso, é chamado pelos taoístas como Sublime Patriarca do Caminho.

Lao Tse propõe a apreensão do mistério: suas palavras superam a própria forma, o próprio texto. O desvendamento gradual do ensinamento, aqui oferecido, tenta trazer a apreensão daquilo que, para ele, constitui exatamente o indizível.

(Wu Juh Cherng)

CAPÍTULO 1
O caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante
O nome que pode ser enunciado não é O Nome constante
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe de dez mil coisas
Assim, a constante não-aspiração3 é contemplar as Maravilhas4
E a constante aspiração5 é contemplar o Orifício6
Ambos são distintos em seus nomes mas têm a mesma origem
O comum entre os dois se chama Mistério7
O Mistério dos Mistérios é o Portal para todas as Maravilhas

3 Não-aspiração: significa a ausência de intenção.
4 MIAO: Maravilha, significa as manifestações do Caminho.
5 Aspiração: significa a manutenção da vontade.
6 CHIAO: tem dois sentidos, 1º) Luz, Claridade ou Cor Branca; 2º) Orifício, Cova ou Abertura.
7 SHUEN: tem dois sentidos, 1º) Mistério; 2º) Cor Negra. SHUEN é a convergência e a anulação dos opostos.

CAPÍTULO 2
Quando os seres sob o céu reconhecem o belo como belo
Então isso já se tornou um mal
E reconhecendo o bem como bem 
Então já não seria um bem
A existência e a inexistência geram-se uma pela outra
O difícil e o fácil completam-se um ao outro
O longo e o curto estabelecem-se um pelo outro
O alto e o baixo inclinam-se um pelo outro
O som e a tonalidade são juntos um com o outro
O antes e o depois seguem-se um ao outro
Portanto
O Homem Sagrado8 realiza a obra pela não-ação9
E pratica o ensinamento através da não-palavra10
Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
Concluem a obra sem se apegar
E justamente por realizarem sem apego
Não passam

8 SEM ZEN: Homem Sagrado. Originado no conceito da sagração do homem, que tem sentido de união da Consciência Pura com a Vida Infinita.
9 WU WEI: Não-Ação; tem sentido de ação sem intenção.
10 WU YEN: Não-Palavra; tem sentido de palavra sem intenção.

CAPITULO 3
Não valorizando os tesouros, mantém-se o povo alheio à disputa
Não enobrecendo a matéria de difícil aquisição, 
mantém-se o povo alheio à cobiça
Não admirando o que é desejável, 
mantém-se o coração alheio à desordem
O Homem Sagrado governa
Esvazia seu coração11
Enche seu ventre12
Enfraquece suas vontades13
Robustece seus ossos
Mantém permanentemente o povo sem conhecimentos e desejos
Faz com que os de conhecimento não se encorajem e não ajam
Sendo assim
Nada fica sem governo

11 SHIN: Coração tem sentido de razão, emoção e intenção.
12 FU: Ventre tem sentido de vitalidade.
13 DZE: Vontades tem sentido de desejos.

CAPITULO 4
O Caminho é o Vazio14
E seu uso jamais o esgota
É imensuravelmente profundo e amplo, como a raiz dos dez mil seres
Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
Límpido como a existência eterna
Não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste15

4 CHUN: Vazio ou Harmonia. Vazio é a Natureza do Caminho; Harmonia é a Manifestação do Caminho.
15 HSIAN TI: HSIAN significa Imagem ou Forma; TI significa Rei. “HSIAN TI” é o nome atribuído ao Rei Celeste – Deus Onipotente criador de todas as formas.

CAPITULO 5
O céu e a terra não são bondosos
Tratam os dez mil seres como cães de palha16
O Homem Sagrado não é bondoso
Trata os homens como cães de palha
O espaço entre o céu e a terra assemelha-se a um fole
É um vazio que não distorce
Seu movimento é a contínua criação
O excesso de conhecimento conduz ao esgotamento
E não é melhor do que manter-se no centro17

16 DZOU GO: Cão de Palha representa no sacrifício o desapego do ser.
17 CHUN: Centro, Meio ou Interior.

CAPITULO 6
O Espírito do Vale18 nunca morre
Isso se chama Orifício Misterioso19
A porta do Orifício Misterioso é a raiz do céu e da terra
Seja suave e constante
Usufruindo sem se apressar

18 GU SHIEN: GU significa Vale; SHEN significa Espírito. Espírito do Vale representa a Conciencia do Vazio.
19 SHUEN SHUE: SHUE significa Orificio. Orificio Misterioso é o espaço onde o universo se cria e se destrói. É o SHUEN GUAN (Portal Negro) da alquimia taoísta.

CAPITULO 7
O céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros
Assim
O Homem Sagrado deixa seu corpo para trás e o Corpo20 avança
Além do corpo, o Corpo permanece
Através do não-corpo, conclui o Corpo

20 SZE: O Corpo aqui tem sentido de corpo espiritual.

CAPITULO 8
A bondade sublime é como a água21
A água, na sua bondade, beneficia os dez mil seres sem preferência
Permanece nos lugares desprezados pelos outros
Por isso assemelha-se ao Caminho
Viva com bondade na terra
Pense com bondade, como um lago
Conviva com bondade, como irmãos
Fale com a bondade de quem tem palavra
Governe com a bondade de quem tem ordem
Realize com a bondade de quem é capaz
Aja com bondade todo o tempo
Não dispute, assim não haverá rivalidade

21 SUE: Água. No I Ching, é o primeiro elemento da natureza, representa o princípio. Na alquimia taoísta corresponde ao Sopro Primordial.

CAPÍTULO 9
O que é mantido cheio não permanece até o fim
O que é intencionalmente polido não é um tesouro eterno
Uma sala cheia de ouro e jade é difícil de ser guardada
Riqueza e nobreza somadas à arrogância
Trazem para si a própria culpa
Concluir o nome, terminar a obra, retirar o corpo
Este é o Caminho do Céu

CAPITULO 10
Quem conduz a realização do corpo por abraçar a unidade
Pode tornar-se indivisível
Quem respira com pureza por alcançar a suavidade
Pode tornar-se criança
Quem purifica através do conhecimento do mistério
Pode tornar-se imaculado
Ame o povo e governe o reino através do não-conhecimento22
Ilumine e clareie os quatro cantos através da não-ação
Abra e feche a porta do céu através da ação feminina
O que gera e cria
Gera mas sem se apossar
Age sem querer para si
Cultiva mas sem dominar
Chama-se Misteriosa Virtude23

22 WU DZE: Não-Conhecimento tem sentido de conhecimento sem engenhosidade e malícia.
23 SHUEN TE: Misteriosa Virtude tem sentido de virtude oculta – um bem que ao é reconhecível pelos outros.

CAPÍTULO 11
Trinta raios convergem ao vazio do centro da roda
Através dessa não-existência
Existe a utilidade do veículo
A argila é trabalhada na forma de vasos
Através da não-existência
Existe a utilidade do objeto
Portas e janelas são abertas na construção da casa
Através da não-existência
Existe a utilidade da casa
Assim, da existência vem o valor
E da não-existência, a utilidade

CAPITULO 12
As cinco cores tornam os olhos do homem cegos
As cinco notas tornam os ouvidos do homem surdos
Os cinco sabores tornam a boca do homem insensível24
Carreiras de caça no campo tornam o coração do homem enlouquecido
Os bens de difícil obtenção tornam a caminhada do homem prejudicada
Por isso, o Homem Sagrado se realiza pelo ventre e não pelo olho
Assim, afasta este e escolhe aquele

24 A relação entre cor, nota (musical) e sabor com os Cinco Movimentos:
Madeira = Azul = Mi = Ácido
Fogo = Vermelho = Sol = Amargo
Terra = Amarelo = Dó – Doce
Metal = Branco = Ré = Picante
Água = Preto = Lá = Salgado

CAPITULO 13
O prestígio e a humilhação geram susto
A nobreza e a grande preocupação situam-se no corpo
O que são prestígio e humilhação?
Prestígio é inferior
Ao obtê-lo ficamos assustados
Ao perdê-lo ficamos assustados
Isto é o que quer dizer “o prestígio e a humilhação geram susto”
O que quer dizer “a nobreza e a grande preocupação situam-se no corpo” ?
A razão de eu ter esta “grande preocupação” é ter um corpo
Se não tivesse um corpo
Com que teria que me preocupar?
Por isso
Nobre é aquele que entrega o corpo ao mundo
A este o mundo pode se entregar
Quem ama faz do mundo o seu corpo
Neste o mundo pode confiar

CAPÍTULO 14
Aquilo que se olha e não se vê, chama-se invisível
Aquilo que se escuta e não se ouve, chama-se inaudível
Aquilo que se abraça e não se possui, chama-se impalpável
Estes três não podem ser revelados
Por isso se fundem e se tornam um
Enquanto superior não é luminoso
Enquanto inferior não é vago
O Constante que não pode ser nomeado
É o retorno à não-existência
É a expressão da não-expressão
É a imagem da não-existência
A isso se chama indeterminado
Encarando-o, não se vê sua face
Seguindo-o, não se vê suas costas
Quem mantém o Caminho Ancestral
Poderá governar a existência presente
Quem conhece o Princípio Ancestral
Encontrará a ordem do Caminho

CAPÍTULO 15
Os bons realizadores da antiguidade eram sutis
Maravilhosos, misteriosos e despertados
Eram profundos e não podiam ser compreendidos
E justamente por não poderem ser compreendidos
É preciso esforçar-se para ilustrá-los
Receosos como quem atravessa um rio no inverno
Cautelosos como quem teme seus vizinhos
Reservados como o hóspede
Solúveis como o gelo fundente
Genuínos como a madeira bruta
Vazios como os vales
Entorpecidos como as águas turvas
O turvo, através da quietude, torna-se gradualmente límpido
O quieto, através do movimento, torna-se gradualmente criativo
Aquele que resguarda este
Caminho não tem desejo de se enaltecer
E justamente por não se enaltecer, mesmo envelhecido, pode voltar a criar

CAPÍTULO 16
Alcançando o extremo vazio e permanecendo na quietude da extrema quietude
Os dez mil seres se manifestam simultaneamente
E, através disso, contemplamos o seu retorno25
Apesar da diversidade dos seres
Cada um deles pode retornar a sua raiz
O regresso à raiz se chama quietude
Quietude se chama retornar a viver
Retornar a viver se chama constância
Conhecer a constância se chama iluminação
Desconhecer a constância é a impropriedade que provoca o infortúnio
Quem conhece a constância é abrangente
Quem é abrangente pode ser coletivo
O coletivo tem o poder da criação
A criação tem o poder do céu
O céu tem o poder do Caminho
O Caminho tem o poder do eterno
Assim,
Mesmo perdendo o corpo, não irá perecer

25 FU: Retorno – Hexagrama FU do I Ching, representa, no auge da quietude, o nascimento da atividade.

CAPÍTULO 17
Do supremo, o inferior tem apenas ciência da existência
Do estado que o sucede, intimidade ou admiração
Do estado seguinte, temor ou desprezo
Não havendo suficiente confiança, surge a desconfiança
Quem valoriza a palavra, realiza a obra sem deixar rastros
Assim, o povo achará que surgiu por si, naturalmente

CAPÍTULO 18
Quando se perde o Grande Caminho
Surgem a bondade e a justiça26
Quando aparece a inteligência Surge a grande hipocrisia
Quando os seis parentes27 não estão em paz
Surgem o amor filial e o amor paternal
Quando há desordem e confusão no reino
Surge o patriota

26 São duas das cinco virtudes do taoismo: bondade, justiça, sabedoria, polidez e fidelidade.
27 Seis Parentes: mãe-filho representa a relação superior-inferior, irmão-irmão representa a relação em mesmo nível, marido-esposa representa a relação interno-externo.

CAPÍTULO 19
Anule o sagrado e abandone a inteligência
E o povo cem vezes se beneficiará
Anule a bondade e abandone a justiça
E o povo retornará ao amor filial e ao amor paternal
Anule a engenhosidade e abandone o interesse
E não haverá mais ladrões nem roubos
Se estas três frases ditas não são o suficiente
Então faça existir aquilo em que se possa confiar
Encontrando e abraçando a simplicidade
Reduzindo o egoísmo e diminuindo os desejos

CAPÍTULO 20
No ensinamento pela supressão não há preocupações
Entre aceitar e repudiar qual a diferença?
Entre apreciar e desprezar qual a distância?
O que os homens temem, poderiam não temer?
Abandone isso antes que se esgote!
Os homens se agitam como um festejo na grande prisão
Ou como subir à varanda na primavera
Meu corpo não tem expressão
Como uma criança antes de nascer
Como a estrela Kuei28 que não tem onde se apoiar
As pessoas todas possuem em excesso
Somente eu aparento estar perdendo
Sou como um ignorante que tem o coração puro
Os medíocres vivem lúcidos
Somente eu estou introspectivo
Indefinido como uma infinita noite silenciosa
As pessoas todas têm um ego
Somente eu o ignoro considerando-o precário
O que quero que me distinga dos demais
É valorizar o alimentar-se da Mãe29

28 KUEI: Alfa da constelação Ursa Maior. Representa o Espírito Primordial dos seres.
29 “Alimentar-se da Mãe” refere-se a alimentar-se daquilo que antecede tudo, é o Sopro Uno do Céu- Anterior da alquimia taoísta.

Livro continua…

AGRADECIMENTOS
Este trabalho é dedicado ao meu mestre, Sr. Maa Ho Yang, ao qual sou muito grato por tudo que me ensinou.
*
Gostaria de expressar meus sinceros agradecimentos à Andréa de Moraes, Mônica Simas e Francisco Mourão pela atenciosa revisão.
Wu Juh Cherng

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