Shalom!
Sementes do Eterno
No ventre da Terra,
envoltas em sombras e promessas,
repousam as sementes do mistério.
Dormem em silêncio,
aninhadas no útero da aurora,
guardando em si o segredo da luz que há de vir.
Nada apressa o instante.
Nada falta ao tempo.
Tudo germina no invisível,
onde o Eterno trabalha em silêncio.
E quando o chamado chega —
suave como um sopro,
profundo como o canto do Universo —
as sementes despertam.
Rompem os solos da inércia,
rasgam o escuro da espera,
e se erguem, frágeis e luminosas,
para beber o Sol e respirar o vento.
Entregam-se à chuva
como quem se entrega ao destino,
sabendo, sem saber,
que nascer é também lembrar.
Recordam então:
foram semeadas no colo do Universo,
e o mesmo hálito que as fez brotar
as conduz, agora, de volta à essência.
Recebem dons —
sabores, formas, caminhos —
mas tropeçam em si mesmas,
cegas de quereres e apegos,
tecendo véus sobre a visão do infinito.
Falam de luz,
mas temem o silêncio que a revela.
Procuram deuses nos céus,
quando o sagrado respira
entre um pensamento e outro,
entre um coração e outro,
entre o ser e o simples existir.
Ignoram o ouro oculto
na simplicidade do instante.
Buscam fora o que já floresce dentro,
erguem templos de pedra,
quando o altar é o próprio sopro da vida.
E ainda assim...
o Eterno as chama, incansável,
em cada dor, em cada perda,
em cada alegria que se dissolve no tempo.
Chama-as no silêncio das noites,
no perfume da terra molhada,
no olhar que se detém,
no gesto que acolhe.
Há apenas o passo —
e o passo já é destino.
Pois o caminho não é um lugar,
é um estado de presença.
As mentes correm,
tecem véus de vento e fantasia,
mas os seres... permanecem.
Eles são o próprio chão,
a própria seiva,
a respiração entre mundos.
No vasto sem bordas,
no oceano de luz em forma de gota,
o tempo brinca de ser instante,
e o instante, de ser eternidade.
Tudo o que nasce
é apenas o Eterno em flor.
E o propósito — ah, o propósito —
não está em alcançar o alto,
mas em lembrar-se do que já se é:
um fragmento do Todo,
uma centelha da Criação,
um eco da mesma Voz
que canta em todas as coisas.
Somos o silêncio entre os sons,
o espaço onde o mundo floresce.
Somos sementes do Infinito,
sonhando ser terra,
para um dia, despertas,
voltar a ser luz.
E assim, o ciclo se cumpre:
do ventre à estrela,
da sombra à clareza,
da busca ao reencontro.
Porque nada se perde.
Tudo desperta.
E a vida —
é o próprio Universo se lembrando de Si.
Como num caminho de lembrança,
a vida na Terra é solo sagrado
onde a consciência germina...
Como parte do florescer da alma.
O propósito não é chegar a algum lugar,
mas despertar no aqui e agora —
reconhecendo o divino no ordinário,
o infinito em cada gesto,
e o sagrado no simples ato de existir.