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Corpo ou Alma: Uma Questão de Consciência...
por Dr. Roger Cole
Dando sequência a seu artigo anterior, “O Ser Verdadeiro... Despido e Exposto” (catalogado... como Empoderamento/Desenvolvimento Espiritual), Dr. Roger Cole explora a diferença vital entre corpo e alma.
Como médico, venho já praticando regularmente a meditação há oito anos, desde o tempo da minha experiência com Kübler-Ross, em 1984. O seminário com essa psiquiatra mudou muita coisa em mim.
O mais notável foi a perda da raiva. Meu temperamento acalmou-se completamente. Passei a sentir calma interior. Considere a “síndrome das meias”, por exemplo. Você se levanta para o trabalho e está com pressa. Abre a gaveta. E lá estão elas. Duas meias, uma vermelha e outra azul! Você sabe que colocou os dois pares na cesta de roupa suja. Mas, de alguma maneira, em algum lugar, elas se perderam para sempre. Nenhum tempo dedicado a procurá-las poderia resolver o mistério. Em outros tempos, eu teria “chutado o pau da barraca” por causa de uma inconveniência tão pequena. Era como se tivesse um barril de pólvora dentro de mim. Num minuto, calmo, tranqüilo e recolhido; no seguinte, um dispositivo incendiário e explosivo. Depois de Kübler-Ross essas explosões cessaram completamente. Agora, eu digo: “Uma meia vermelha e outra azul? Excelente, vou lançar uma nova moda!”. E sabe o que mais? Ninguém notaria. Mesmo numa reunião onde você cruzasse uma perna e depois a outra, ninguém perceberia. Primeiro eles veriam uma meia vermelha, depois uma meia azul. Mas não notariam. Então, por que ficar bravo? Eu disse que a coisa mais notável foi a perda da raiva. E o mais surpreendente não foi o fato de ter-me livrado da expressão da raiva, mas livrar-me da expressão de angústia reprimida. Ao desprender-me da tristeza, fui liberado da raiva. Nunca mais joguei tacos de golfe por aí (ao contrário, passei a bater com eles somente na bola!). Nem reclamei ou briguei numa quadra de tênis. Na realidade, meu extremismo competitivo e a necessidade de impressionar os outros começaram a enfraquecer. O grande empreendedor que havia em mim estava morrendo.
Tal experiência com minha própria vida me ajudou a entender os outros. Se alguém estiver furioso, compreendo que vivenciou algum tipo de perda. Quer seja nesta vida, ou num passado mais remoto, houve experiências de tristeza, tão dolorosas, que foram reprimidas, assim como as infecciosas sementes das atitudes e emoções negativas; sementes que germinam palavras e ações destrutivas. A raiva emerge e, de uma maneira estranha, ela “protege” o indivíduo da vulnerabilidade de experimentar tristeza. Há um tipo de “segurança” nisso. Ajuda a superar o medo e a exposição, enquanto age como uma proteção. Por fim, forma-se um hábito onde a raiva é utilizada em situações ou circunstâncias em que um indivíduo está tentando manter seu mundo constante, seguro e sob controle. E isso é estendido ou projetado para fora, às vezes, a fim de “proteger” os outros.
Quando comecei a entender esses fatos, descobri que poderia perdoar e tolerar mais facilmente. O que é perdoar, quando você sabe que alguém agiu contra você sob a influência da angústia? Dizer, “eu nunca o perdoarei por isso”, é permanecer com raiva. Desse modo, você mantém a sua tristeza. Parece justificado mas, na verdade, a falta de perdão o mantém numa relação com aquela pessoa e situação. E você nunca ficará livre até que se desprenda disso.
Para mim, o perdão e a tolerância surgiram ao entender os outros através da autoconsciência. Dessa forma, me senti mais confortável com as emoções das pessoas, especialmente com relação à angústia, perda e separação. À medida que o indivíduo percorre o caminho espiritual, surge uma necessidade de quebrar a identidade do corpo. Quero dizer, quebrar a consciência corpórea e encontrar o eu verdadeiro e autêntico, ou seja, a alma. E então redescobrir as qualidades e natureza originais inerentes à alma em sua mais pura expressão, isto é, antes de começar o ciclo de nascimento e morte. Antes de experimentar apego, separação e perda. Antes da raiva. Antes do amor e da satisfação tornarem-se dependentes do mundo externo.
Para aprofundar, vou sair do conceito de que a alma ou espírito se mantém vivo depois da morte. Ao invés, vou enfatizar que, em essência, a alma é, na realidade, a verdadeira identidade. E o corpo, com sua identidade e relacionamentos, é apenas um veículo temporário para o eu. A afirmação “eu tenho uma alma”, traz em si uma outra: “...mas eu sou um corpo”. Por outro lado, dizer, “eu sou uma alma”, é uma expressão precisa de identidade que contém em si a declaração: “...e eu tenho um corpo”. Um aprofundamento de tal consciência é perceber a inexistência da morte. Sendo uma alma, como eu posso morrer? Posso entrar ou deixar um corpo “nascendo” ou “morrendo”, mas minha forma sutil de luz não pode ser extinguida. Essa é uma questão de consciência. Como um corpo, eu vivo na espiral da morte. Como alma, eu sou eterno. Destemido. Esses são aspectos muito profundos de fé. Em meu artigo anterior (O Ser Verdadeiro... Despido e Exposto), a mãe de June morreu com aceitação plena, expondo a beleza espiritual de uma alma sem cargas. Ela nos deu um exemplo de nosso potencial e espelhou nossa verdadeira natureza. Vamos agora considerar as implicações que isso tem para as identidades verdadeira e falsa.
Ao nascer, é dado um nome e adotado um sexo para a criança. Ambos são regularmente reforçados por pais amorosos que desejam que o recém-nascido se reconheça do mesmo modo como eles o fazem: como um menino ou menina, e como um corpo. Conforme a criança cresce e aumenta a sua consciência, ele ou ela logo descobre as armadilhas da consciência corpórea. “Você é o Roger. Estes são seus olhos. Aqui é seu nariz. Suas orelhas. Estes são seus braços. E suas pernas”. Olhos, nariz, orelhas, braços e pernas. “Ah, este sou eu! Eu sei quem sou. Eu sou um menino. E, você sabe o que mais?... Meninas são bobas!” Assim, uma criança encontra identidade em seu nome e forma. Uma identidade que já é externa à sua alma ou ao ser verdadeiro; e começa a separar e discriminar.
Isso vai além, quando a pessoa começa a associar a si mesma com cor e cultura: preto ou branco, europeu ou asiático, francês ou alemão. Na medida em que isso acontece, com o conhecimento crescente do mundo ao seu redor, passam a existir mais motivos para a separação do eu em relação aos outros, bem como para formar afiliações que assegurem uma identidade de crescente complexidade. Nesta época de sociedade multicultural, a fusão de raça, religião e políticas oferece uma oportunidade para o respeito, a igualdade e a integração. Isso também significa que as crianças são confrontadas, relativamente cedo na vida, pelas diferenças aparentes quando comparadas à minha geração. É aí que as atitudes e identidade da unidade familiar, pais e cultura representam um papel significativo na modelagem da identidade pessoal. Se existe rivalidade cultural é provável que logo ocorram conflitos e dor, conduzindo à raiva e ao ódio; isso pode ser estendido desde uma confrontação individual até um grupo cultural como um todo.
Eu cresci na Inglaterra numa época em que havia relativamente poucas pessoas de cor na sociedade. Em meu último ano na escola primária, um menino negro, ocidental e de origem indígena foi matriculado vindo de uma família que acabara de emigrar. Nós o chamávamos de “Bony” (Ossos), porque era bem magro. Ele era a única criança negra na escola. E havia um grupo que trazia a Bony grandes dificuldades. “Bony é um negro!”, eles cantavam. E queriam que ele fosse embora. “Ei, menino negro. O que você está fazendo aqui?” E o pior, uma criança havia aprendido a frase: “Preto bastardo!”, que ensinou aos outros. Bony chorou muito quando começou na escola conosco. Mas ele teve duas graças salvadoras. A primeira foi a sua personalidade amena. Assim, ele fez amizade com crianças que gostavam dele pelo que era. Essas crianças, ao contrário, não pareciam afetadas pelo fato de ele ser de outra raça. Elas simplesmente se relacionavam com a natureza do indivíduo que existia na forma de um índio ocidental nativo. A segunda foi que ele era bom no futebol. Na verdade, melhor que todos nós. A maioria dos opositores na escola eram jogadores de futebol. Na realidade, ser um jogador de futebol representava parte da identidade estendida (falsa) daquelas crianças. (Muito de nossa rivalidade escolar foi construída em torno de saber se você torcia para o Manchester United ou para o Manchester City, algo que geralmente era herdado dos pais.)
Gradualmente a identidade crescente de Bony como jogador de futebol começou a superar a barreira de sua cor. Os primeiros opositores começaram a colocá-lo no seu time, já que isso lhes garantiria uma boa chance de ganhar. Ao vê-lo como um deles – como um jogador de futebol – o grupo então o aceitou.
O que vimos aqui são alguns efeitos da consciência corpórea em crianças de 10 anos de idade já trazendo a separação e a discriminação, bem como o caos no pátio de recreação. Os opositores provavelmente tinham exemplos dentro de seus círculos familiares que influenciavam suas atitudes. Tais atitudes, sejam elas da família ou da sociedade, também formam a identidade. Elas são passadas dos pais para os filhos e estão baseadas em diversos fatores, incluindo cultura, classe social, religião e política.
Parte da hostilidade contra Bony emanava do medo. Os protagonistas, confrontados pela falta de familiaridade, reagiam com malevolência. Cada um deles se sentia mais seguro em sua reação que repelia a dúvida de como lidar com um garoto de cor. Com a afiliação deles como grupo, formou-se uma estrutura entre os colegas que identificava a inimizade como sendo aceitável sob aquelas circunstâncias. Por outro lado, os alunos que se simpatizaram com Bony reagiram mais à sua personalidade do que à sua aparência. Ao aceitá-lo, eles foram menos preconceituosos à sua cor. E também, estavam estendendo valores de identidade vindos da influência de seus próprios ambientes familiares.
Ao mesmo tempo, outra divisão acontecia: os que eram a favor de Bony e os que eram contra. Foi um choque de valores... um choque de identidades. Ficar do lado de Bony era como travar uma luta, então, tínhamos muitas lutas acontecendo naquele momento. Até que finalmente surgiu o jogador de futebol. Graças aos céus ele sabia jogar! Talvez nisso Bony tenha nos dado uma idéia sobre cooperação global. A necessidade de descobrir uma identidade comum e unificadora.
Assim, a partir desses momentos iniciais de identidade da consciência corpórea, um senso de individualidade se desenvolve e o ego surge. Não estou me referindo aqui ao Ego de que tratam algumas filosofias espirituais, onde este é usado como um sinônimo do “eu” superior ou alma. Estou me referindo ao egocentrismo. Com o ego, vem o desejo de ter ou de possuir. E, com o desejo, vem um crescente complexo de identidade, trazendo um crescente complexo de necessidades. Através dos anos como adolescente e adulto, há novos papéis e responsabilidades, incluindo papéis profissionais e relacionamentos. Estes são incluídos na constante expansão da definição do ser. Estudante, eletricista, dona-de-casa, secretária, advogado, empreiteiro. Marido, esposa, pai, tio, avó. Os interesses e passatempos são desenvolvidos de acordo com as qualidades e as habilidades especiais. E a identidade cresce: jogador de golfe, jardineiro, piloto de asa-delta, artista, cozinheiro, jogador de futebol. As atitudes aprofundam-se e a identidade cultural se fortalece. O dinheiro, agregado ao desejo pela riqueza material e posses, pode dominar a vida. Novos “ícones” de identidade proliferam: uma casa, um carro, móveis, equipamentos esportivos, roupas caras. Para muitas pessoas, o corpo, com sua saúde e sua aparência, forma um foco principal de atenção. Parece haver uma fascinação mórbida por ter uma aparência perfeita ou evitar doenças. Você só tem que passar os olhos pelas páginas das revistas de qualquer banca para confirmar isso. Dietas para emagrecer, suplementos alimentares, cosméticos, moda etc.
Ao mesmo tempo em que a complexidade dessa identidade do ego se expande, assim também crescem suas dependências. Não importa quem você seja, há um desejo comum de paz na mente, contentamento e felicidade. Também há uma necessidade universal de ser amado. À medida que a identidade se torna progressivamente externalizada, o seu bem-estar precisa de circunstâncias e relacionamentos estáveis. Para nos sentirmos valorizados, precisamos ser efetivos dentro de nossos papéis e responsabilidades. Para a nossa segurança, somos dependentes de uma renda, riqueza material e posses. Para o amor, temos a dependência de relacionamentos. E, para o bem-estar, precisamos de saúde física e de uma boa aparência. Tudo isso representa uma expansão da nossa identidade física. Com a existência de tantas variáveis, o contentamento no indivíduo está sob a ameaça constante de mudanças. Para evitar a insegurança, nasce a arrogância com a qual o indivíduo pode manter o controle sobre um mundo externo de circunstâncias e relacionamentos. Surge então a ganância, num excessivo impulso por preenchimento através da riqueza, status ou comida. O apego oferece conforto através da possessão sobre pessoas ou objetos. A luxúria se desenvolve pela autogratificação ou para satisfazer desejos fortes e excessivos.
Na preservação de uma identidade precária, a raiva e a acusação são os últimos recursos de defesa. Elas são acionadas quando há uma ameaça às circunstâncias ou aos relacionamentos, ou ainda quando a autogratificação está obstruída. Como eu já disse, reagir com raiva é um aprendizado feito a partir de experiências anteriores de perda. Aqui nesse contexto, a raiva também pode ser usada como uma profilaxia contra futuras perdas para o indivíduo. E isso será materializado em qualquer momento em que a perda se manifeste novamente.
Então, essa é a consciência corpórea. Incluídos a ela estão os atributos negativos, ou vícios, que o indivíduo aplica para reter um senso de segurança. Os cinco principais são o desejo (luxúria), o apego, a raiva, a ganância e a arrogância. Na consciência corpórea – ou na identidade ilusória –, um indivíduo os aplica para manter o controle. Conseqüentemente, vai sustentar a paz interna e a felicidade, embora temporariamente. Em meio a isso fica esquecida a nossa identidade verdadeira e original: aquela que é da alma. Esquece-se também de que a paz e a felicidade são atributos naturais dessa verdadeira identidade. É a alma que originalmente continha essas qualidades em sua forma mais pura, quando elas eram independentes das circunstâncias externas. É a alma que vive, pensa, age e tem experiências através do corpo; através do veículo do corpo. E é a alma que se “perde” na consciência corpórea.
Após a minha experiência com Kübler-Ross – minha “janela” para a alma –, comecei a meditar com sinceridade. Passei a fazer esforço para me tornar, ou estar na consciência da alma. No início, estava convencido de que a minha alma era a minha parte pura. E que os traços negativos da minha personalidade não tinham nada a ver com isso.
Um dia, um colega médico que praticava Raja Yoga me disse que a alma se torna impura. Esse comentário permeou os meus pensamentos. E recordei a minha experiência de consciência da alma no seminário. Ela foi seguida de catarse e de exoneração da parafernália e da complexidade da personalidade. A experiência “colidiu” com todos os meus escudos de proteção, ao expôr o “eu” verdadeiro, interior. Aquilo me trouxe um encontro com a minha identidade verdadeira e original. Ao mesmo tempo, percebi que aquela não era apenas a minha natureza original, mas também o destino do crescimento: que assim como eu fui, eu deveria então me tornar. De repente, as coisas começaram a fazer sentido para mim. A alma é a fonte da consciência, não importa como seja expressa. Sob a influência do corpo, cria-se uma ilusão, e é a alma que se torna consciente do corpo. Presas por essa ilusão, as camadas da personalidade aumentam, como anéis de cebola, na alma, até que seja completamente coberta e o diamante torna-se imperfeito. Através dos filtros de uma identidade equivocada e de uma personalidade adquirida, é a alma que fica com raiva ou que tem experiências, como os ciúmes ou o ódio. É a alma que usa o corpo para atacar um outro ser humano. E é a alma que tem a experiência de perda ou de tristeza. É também a alma que almeja se tornar pacífica novamente.
Ao começar a entender essas coisas, eu soube que a afirmação de meu colega era verdadeira. Originalmente pura, a alma se torna impura através da consciência corpórea. E, na renovação do crescimento espiritual, a pureza retorna.
Roger Cole é médico especialista em medicina de câncer. Dirige atualmente o Palliative Care Service, na Austrália. Este texto foi extraído do seu próximo livro “Uma Tapeçaria de Luz”, e foi originalmente publicado pela BK Publications (www.bkpublications.com) na Retreat Magazine #11.
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