domingo, 17 de maio de 2026

Namastê buscadores!

A Carne do Mistério
Houve um tempo em que a verdade parecia habitar apenas as alturas. Pensava-se que o espírito precisava afastar-se da poeira, dos ruídos e das pequenas fadigas do cotidiano para tocar o eterno. Subia-se pelas ideias, pelas palavras belas, pelas arquiteturas do pensamento. Mas toda subida longa cobra seu preço: em algum momento, o coração já não reconhece o caminho de volta para casa.
Foi quando percebemos os que falavam da dor como quem descreve um mapa antigo. Explicavam tudo. Nomeavam tudo. Traduziam cada sombra antes mesmo que ela pudesse respirar. E quanto mais luz lançavam sobre o mistério, menos vida restava nele. Há sofrimentos que se fecham quando excessivamente observados. Recuam diante da análise, como animais noturnos assustados pela claridade.
A alma não gosta de vitrines.
Ela prefere os lugares de passagem. Surge mais inteira num silêncio interrompido do que num discurso completo. Na mão cansada que repousa sobre a mesa. No olhar que se distrai antes de terminar a frase. Na ternura involuntária de quem tenta parecer forte, falando de assuntos pequenos para esconder o abismo que traz por dentro.
Existe uma linguagem que não nasce da experiência, mas da pressa em parecer intensa. Conhece o brilho das palavras, mas desconhece o peso das horas. Impressiona, mas não permanece. O que realmente toca quase nunca chega adornado. A verdade profunda possui uma humildade inevitável. Não se apresenta como espetáculo. Encarna. É sucinta.
Até o símbolo precisa de carne.
Uma metáfora só vive quando conserva o cheiro do mundo. Quando carrega poeira nos pés e atravessa o corpo antes de alcançar a voz. Caso contrário, torna-se ornamento pendurado sobre o vazio... bonito, talvez, mas incapaz de aquecer.
As obras que atravessam os séculos não sobrevivem pela inteligência ou pela beleza formal. Permanecem porque guardam algo humano que não terminou de respirar. Um resto de mistério. Uma ferida não traduzida. Um silêncio preservado dentro da própria criação.
Criar talvez seja menos adicionar do que retirar.
Retirar o excesso de intenção. A necessidade de convencer. A ansiedade de parecer profundo. Até que reste apenas o que pulsa quando as máscaras caem.
Há uma sabedoria no chão humano que a mente puramente abstrata demora a compreender. O cansaço, a imperfeição, a fragilidade e os afetos incompletos contêm uma verdade que nenhum conceito alcança sozinho.
A transcendência sem corpo delira.
O corpo sem mistério vira rotina.
Mas quando ambos se encontram, o invisível respira na experiência concreta. A vida deixa de ser discurso sobre o significado e passa a ser presença. Ponte viva entre o que não explicamos e o que, mesmo assim, continuamos tentando tocar.
Talvez seja essa a arte.
Não iluminar tudo.
Mas preservar sombra suficiente para que outra alma consiga entrar.
por Muzimate
Olafur Arnalds - TREE

quarta-feira, 13 de maio de 2026

 Om, shanti.

O silêncio guardado no fundo do ser não foi feito para o repouso; ele é o solo de onde brota a verdadeira elevação. Quando a semente oculta finalmente desperta e toca a superfície do mundo, descobre que crescer exige uma nova coragem: a de despir-se do velho nome para abraçar a vastidão. Depois de encontrar o próprio centro, resta a pergunta essencial: como transformar essa presença silenciosa em ponte viva, capaz de amar sem amarras e servir sem orgulho?
A Escada Invisível

Há almas que desejam a pureza
sem atravessar o labirinto.

Mas a consciência não floresce no repouso:
amadurece entre ruínas internas,
na lenta alquimia
de reconhecer o excesso
até desejar o essencial.

O espírito aprende por espirais.

Cada erro é uma órbita,
cada perda, um símbolo queimado
na biblioteca secreta do ser.

Não te endureças.

A pedra que recusa a água
permanece intacta
e morta.

Sê como o junco oculto
nas margens do invisível:
cede ao vento das eras
e descobrirás que a flexibilidade
é uma forma mais profunda de poder.

Há antigas peles
que a alma insiste em vestir,
mesmo quando já não respiram.

Então vem o sofrimento... 
não como castigo,
mas como mãos silenciosas
abrindo janelas na matéria.

O universo não deseja réplicas;
ele expande consciências.

E quando o velho nome cair de ti
como poeira de um templo antigo,
surgirá uma presença mais vasta:
sem máscaras,
sem defesa,
sem medo de dissolver-se na luz.

A vida não é longa.
É profunda.

Compõe-se de instantes absolutos:
breves miniaturas eternas
onde um olhar,
um gesto,
ou a súbita revelação da beleza
justificam séculos de existência.

Há momentos
em que o infinito respira através da forma,
e todo o cosmos cabe
na delicadeza de um segundo.

Por isso, sobe.

Acima da vertigem das opiniões,
acima das correntes emocionais,
acima do tumulto dos sentidos.

Olha do alto
sem desprezar a terra.

Porque aquele que contempla além das aparências
não abandona o mundo, 
apenas aprende
a atravessá-lo sem correntes.

O tempo não passa.
Ele inicia.

Cada hora traz escondida
uma inscrição sagrada,
e os dias aparentemente comuns
transportam sementes de eternidade
para os que sabem percebê-las.

Permanece fiel ao teu fogo silencioso.

Não alimentes sombras
que apenas pedem permanência.

A dúvida pode visitar a mente,
mas não precisa tornar-se morada.

Pois a alma que persevera
acaba tornando-se ponte
entre o humano e o eterno.

E então compreenderás:

a evolução não é subir acima dos homens,
mas tornar-se vasto o suficiente
para amar sem prisão,
servir sem orgulho
e irradiar presença
como uma estrela oculta
cumprindo seu destino no invisível.

♫ 
Hymn To Hope — Secret Garden
Composta pelo duo Secret Garden (Fionnuala Sherry e Rolf Løvland)
é uma celebração da superação pessoal e um lembrete musical
de que a esperança é eterna e capaz de nos guiar através de tempos difíceis.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Shalom!
O Fundo que Toca a Margem: 
Uma Reflexão sobre a Permanência

Este poema nos recorda que, embora o tempo risque a pele da vida com a lâmina dos dias, ele jamais alcança a "cripta submersa" onde guardamos nossa essência mais humana. Lá, onde a luz não se apoia, trabalha um calor lento: a nossa capacidade de transformar dor em presença, e distância em encontro.
Compreendemos que a verdadeira filantropia não é o que cai de cima, mas o que transborda do fundo. É o instante em que a meditação se torna ativa, a escuta se torna abraço e o altruísmo se torna o solo comum onde todos pisamos.
Que possamos, como sugere o verso, desaprender a buscar o que está fora para finalmente reconhecer o que já habita o centro. Pois a luz não se guarda; ela circula. E quando o nosso fundo finalmente toca a margem do mundo, não entregamos apenas ajuda, entregamos esperança inteira.

O Tempo Não Toca o Fundo

O tempo passa sobre as coisas
como vento morno na pele da água. 

Mas o fundo permanece.

Ficam nos cantos câmaras seladas
e jardins que florescem sem testemunha.

Assim o tempo risca a superfície
como lâmina em pedra branda,
sem jamais descer
à cripta submersa que respiramos.

Ali, onde a luz não se apoia,
há um calor lento
trabalhando o que não tem nome.

Espesso,
como terra depois da chuva,
o que fomos se desfaz
sem ruído.

Na boca, um gosto de sal.
Nas mãos, um resto de ferro.

Algo em nós reconhece
sem saber por quê.

No escuro do vaso,
onde a forma cede
e o rosto perde seu contorno,
um fogo sem chama insiste.

Não ilumina.
Transforma.

O que resiste endurece.
O que cede respira.

Gota a gota,
um brilho quase invisível
começa a subir da sombra,
como se a noite suasse luz.

Não há anúncio.
Apenas uma abertura súbita,
como terra rachando
depois de longa espera.

E então sem gesto, sem voz,
algo se revela no centro:
não como resposta,
mas como presença.

Simples e inteira.

O olhar que a toca
desaprende a buscar.
Permanece.

Acima, o tempo continua
seu desenho raso
sobre rostos e dias.

Mas abaixo,
no corpo silencioso do mundo, 
a obra segue:
como raiz no escuro,
como semente sob pressão,
como uma semente viva
que não precisa brilhar
para ser.

E às vezes,
sem aviso,
isso sobe à superfície
no meio de um gesto comum: 
um toque,
um silêncio,
um encontro sustentado além do medo.

E o que era distância
se desfaz por um instante.
Não porque algo veio de fora,
pois a luz não se guarda.
Circula.

Como sementes ocultas
no sangue do mundo,
aguardando
o instante exato
em que o fundo, enfim,
toca a margem.
Préservation de l'équilibre ·
Anne Sophie Versnaeyen · Armand Amar

sexta-feira, 1 de maio de 2026

 “As-salamu alaikum”

Música: Le petit loup - Armand Amar - Retrospective
Ibn Arabi Alone with the Alone Henry Corbin
*
O que segue constitui uma síntese interpretativa contemporânea inspirada na metafísica de Ibn ʿArabī e na leitura fenomenológico-teosófica de Henry Corbin, precedida de alguns conceitos fundamentais para a leitura adequada:

“Escuta, ó amado.”
→ Fórmula típica de intimidade espiritual. Não é apenas retórica: indica que o discurso ocorre no interior da consciência, isto é, em um plano de interioridade metafísica, e não como fala externa ordinária.

“Eu sou a Realidade.”
→ Afirmação ontológica de caráter absoluto. Não se trata de predicação (“sou algo”), mas de identidade expressiva do próprio ato de ser, entendido como manifestação do Real.

“Eu sou o todo e as partes.”
→ Unidade que inclui a multiplicidade sem colapso. As “partes” não possuem autonomia ontológica plena, mas realidade relativa como modos de manifestação do ser.

“Eu sou a vontade estabelecida entre o céu e a terra.”
→ Referência à mediação entre o transcendente e o imanente. “Vontade” aqui designa o princípio de determinação pelo qual o ser se manifesta em formas.

“Eu coloquei em ti a percepção apenas para que Eu seja percebido.”
→ A consciência humana é orientada teleologicamente à manifestação do Real. Ecoa o hadith: “Eu era um tesouro oculto e quis ser conhecido.”

“Então, quando Me percebes, percebes a ti mesmo.”
→ Identidade de fundo entre conhecedor e conhecido. O autoconhecimento verdadeiro é teofania consciente.

“Mas não Me percebes por meio de ti mesmo.”
→ Negação da autonomia epistemológica do sujeito. O eu psicológico não é fonte suficiente de conhecimento do Real.

“Por Mim, tu Me vês e vês a ti mesmo.”
→ O conhecer tem origem no Real. A percepção é fundamentada ontologicamente, não no sujeito isolado.

“Por ti mesmo, não Me vês.”
→ Crítica à ilusão de independência cognitiva. O ego não é fundamento do conhecimento.

“Quantas vezes Me manifestei a ti e não Me viste.”
→ A não-percepção não indica ausência, mas ocultamento na própria manifestação.

“Quantas vezes fui fragrância e não Me cheiraste.”
→ A multiplicidade sensível é forma de epifania. Os sentidos são meios de revelação.

“E alimento, e não Me provaste.”
→ Continuidade da teofania no cotidiano. O mundo sensível é campo de manifestação do Real.

“Por que não Me percebes naquilo que tocas?”
→ Crítica à separação sujeito–objeto. O erro é de interpretação ontológica, não sensorial.

“Por que não Me reconheces no que cheiras, vês e ouves?”
→ Integração dos sentidos na gnose. Conhecer é reconhecer o Real nas formas.

“Eu sou melhor para ti do que tudo o que existe.”
→ Hierarquia ontológica: o necessário é superior ao contingente.

“E a alegria que vem de Mim é maior que toda alegria.”
→ Beatitude como consequência do conhecimento do Real, não como prazer psicológico.

“Ama-Me. Ama-Me somente.”
→ Exclusividade ontológica do absoluto. Amar outro como absoluto é erro de direção do ser.

“Ama-te em Mim.”
→ Reconfiguração do eu: identidade fundada no Real, não no ego isolado.

“Une-te a Mim.”
→ Superação da dispersão existencial na multiplicidade das formas.

“Não há ninguém mais próximo de ti do que Eu.”
→ Proximidade ontológica, não espacial.

“Outros te amam por si mesmos. Eu te amo por ti.”
→ Amor divino como reconhecimento da essência do ser.

“E tu foges de Mim.”
→ Alienação: apego ao contingente como se fosse absoluto.

“Não te aproximas de Mim sem que Eu Me aproxime de ti antes.”
→ Primazia do Real: toda busca já é precedida por presença.

“Eu sou mais próximo de ti do que tu és de ti mesmo.”
→ O Real como fundamento do próprio eu.

“Mais próximo que tua alma e tua respiração.”
→ Radicalização da interioridade ontológica.

“Quem, dentre as criaturas, faz por ti o que Eu faço?”
→ Exclusividade do Real como fonte do ser.

“Eu tenho zelo por ti — por ti mesmo.”
→ O ser humano não é autopropriedade ontológica.

“Não quero que pertenças a outro, nem mesmo a ti.”
→ Negação da auto-possessão do eu.

“Sê Meu.”
→ Reconhecimento da dependência ontológica.

“Sê para Mim como és em Mim, mesmo que não saibas.”
→ O estado de unidade já é real; falta apenas reconhecimento consciente.

“Que haja união entre nós.”
→ Realização da não-dualidade vivida.

“E se houver separação, que seja removida.”
→ A separação não é ontologicamente absoluta, embora seja experienciada.

“Que a Verdade seja juiz entre nós.”
→ A Verdade como critério último da realidade.

“E sele nossa união.”
→ Estabilização da realização espiritual.


Este trecho pode ser lido como uma fala do Ser a si mesmo através da forma humana, onde não há dois interlocutores, mas um único Real desdobrando-se em espelho e reflexo. 

O “amado” não designa um indivíduo separado, mas o lugar onde a consciência se torna transparente à sua própria origem. A linguagem do “Eu sou” não descreve um sujeito entre outros, mas a própria realidade do ser enquanto presença absoluta que se manifesta em todas as coisas sem se fragmentar nelas.

O mundo sensível não é véu no sentido de ocultação, mas superfície de revelação contínua: cada coisa tocada, vista, cheirada ou ouvida é uma forma do invisível tornando-se perceptível. O erro não está nos sentidos, mas na crença de que há um fora do Real. A separação entre conhecedor e conhecido é apenas um modo de aparecer da consciência, não sua verdade última.

O eu não é abolido, mas deslocado: deixa de ser centro autônomo e torna-se passagem. O conhecer não parte de uma interioridade isolada, mas de uma presença que já antecede toda busca e a sustenta silenciosamente. Por isso a proximidade é mais íntima do que qualquer interioridade psicológica, mais fundante do que a própria respiração.

O amor aqui não é afeto, mas eixo ontológico: ser chamado a “pertencer” é ser reconduzido à própria condição de manifestação. A união não é fusão, mas reconhecimento desperto de uma continuidade que nunca deixou de existir, embora tivesse sido vivida como separação.

No fim, não há dois para serem reconciliados, apenas o desvelamento de que toda distância era forma de presença, e toda ausência, um modo discreto de aparecer do único Real em sua inesgotável capacidade de se dizer.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

A Rosa no Centro Invisível

A Rosa no Centro Invisível
Om, shanti.

Um buscador caminhou por paisagens que julgava externas.
Atravessou ruínas de ruído e desertos de excesso,
 sem perceber que cada horizonte era o eco
 de um afastamento íntimo.

Chamou de vazio o que era apenas a dilatação
 entre o que era e o que lembrava ser.
E, quanto mais buscava, mais se rarefazia, 
como se sua presença se dispersasse no que tocava.

Até que algo cedeu.

Não foi descoberta nem gesto heróico, mas um cansaço lúcido.
Ele parou.
E, no intervalo sem intenção, no silêncio não fabricado, 
algo emergiu, antigo não no tempo, mas na essência.

Como uma rosa que não se vê, mas se reconhece.

Não vinha de fora nem de dentro.
Era um reconhecimento anterior à linguagem.

Então compreendeu. Nunca houve partida.

A solidão que temia era o espaço onde sua presença
 aguardava sem interferência.
O vazio não era falha, mas abertura, 
um útero invisível onde o reencontro sempre germinou.

Ali, no centro que não se localiza, algo permanecia intacto.

Percebeu um entrelaçamento silencioso sustentando tudo.
Não visível aos olhos apressados, nem reduzido a nomes.
Um espaço vivo onde o instante se curva ao toque.

Não se trata do que se faz, mas de como se é.

Antes de cada gesto, uma inclinação imperceptível.
Antes de cada palavra, um timbre já configura o mundo.

Quando se tornava passagem, havia leveza sem autoria.
Escutava sem ruído, agia sem rigidez, 
e o que acontecia não parecia vir dele, mas através dele.

Como se a rosa, sem esforço, o atravessasse.

Quando se contraía, surgiam fissuras.
O olhar deixava de tocar e passava a medir.
O outro tornava-se conceito.

E o centro, ainda ali, já não era sentido.

Percebeu, então, que não há fora desse campo.
O mundo se organiza ao redor do que se emana.

E a responsabilidade deixou de ser peso
 para tornar-se precisão.
O modo de estar desenha o vivido.

Nada disso se anuncia.
A transformação não irrompe, insinua-se.
Um deslocamento sutil, do querer ao escutar, do reagir ao acolher.

Talvez nunca tenha sido sobre tornar-se,
mas sobre desfazer distâncias imaginadas.

No fundo, resta isto.
O mundo não acontece diante dele.
Acontece como ele o deixa acontecer em si.

E algo persiste, em silêncio.
O que emerge aqui é unidade ou sua ausência.

Assim, ancorou-se no agora.

Respirou presença, silêncio e ruído.
Reconheceu-se inteiro.

Honrou as origens sem se prender a elas.
Viu seus pais como portais da vida, 
fazendo do possível o seu melhor.

Desfez os nós da culpa.
Devolveu ao tempo o que era do tempo.

Soltou antigas cobranças,
expectativas que já não dialogavam com o que via.

Pois não há dívida.
Há travessia.

Aceitou-se sem julgamento.
Libertou-se do tempo.
Tudo o que veio, veio como semente.
O que doeu, portal.

Consciente, escolheu o que floresce.

Agora vê com os olhos da essência:
onde ver dispensa explicação;
onde peso assenta e vira presença;
onde o amor alcanca o que ainda é sensível...

Como pétalas que se abrem sem esforço no invisível...
e que o claro toque o que ainda se esconde.

Quando a culpa cessa, o poder sobre si retorna.
E, na responsabilidade serena, 
a liberdade se revela.

Assim, ele segue.
 E o caminho já não o separa de si.

domingo, 19 de abril de 2026

Ecos da Violência: a jornada entre a destruição e a esperança

Shalom, buscadores!

Estas palavras não pretendem encerrar debates nem oferecer respostas definitivas sobre violência, desigualdade ou opressão. Nascem, antes, de uma inquietação serena; da tentativa de compreender o nosso tempo à luz de leituras, encontros e silêncios. Não há aqui a pretensão da originalidade, mas o desejo honesto de olhar o mundo com atenção. Talvez, no espaço entre certezas frágeis, ainda possamos cultivar perguntas que nos conduzam a formas mais justas de existir.

 

Ecos da Violência: a jornada entre a destruição e a esperança

A violência não reconhece fronteiras. Ela atravessa culturas, crenças e territórios, manifestando-se tanto no estrondo dos conflitos quanto na quietude das estruturas que ferem sem ruído. Por vezes visível, por vezes diluída no cotidiano, ela nos acompanha como uma sombra persistente.

Habita, também, o próprio ser humano esse paradoxo inquietante: a capacidade de cuidar e, ao mesmo tempo, de destruir. Entre esses extremos, seguimos... tentando compreender por que a violência insiste em gravitar ao redor de nossas escolhas, como se fosse tanto herança quanto construção.

Por que a violência parece gravitar sobre nossas vidas?
Por que, em tantas partes do mundo, a terra se torna solo fértil para a desolação e o sangue?

E, mais perto do que imaginamos:
em que momentos nos tornamos indiferentes ao sofrimento alheio?
Quando foi que o outro passou a ser visto como ameaça, e não como espelho?
Que pequenas violências normalizamos no cotidiano, sem perceber?
O que, em nós, ainda resiste à escuta, ao encontro, à diferença?

Em muitas regiões do mundo, o passado não passou. O continente africano, vasto em história e diversidade, ainda carrega marcas profundas de processos que fragmentaram seus caminhos. Onde faltam oportunidades, acesso e reconhecimento, o sofrimento deixa de ser exceção e ameaça se tornar rotina; não por destino, mas por abandono prolongado.

Na Europa, outras tensões emergem. O deslocamento de povos, impulsionado por crises e desigualdades, revela fissuras que desafiam a ideia de progresso. O que poderia ser encontro transforma-se, muitas vezes, em resistência. O medo do diferente ergue muros invisíveis, e a diversidade; em vez de potência; passa a ser percebida como ameaça. Até aquilo que poderia unir, como a fé ou a cultura, por vezes se converte em linha de separação.

A violência, assim, não se resume ao gesto imediato. Ela se enraíza em estruturas que distribuem de forma desigual dignidade, voz e pertencimento. Quando essas estruturas permanecem intactas, o conflito deixa de ser acaso e se torna consequência.

Em um mundo interligado, nada permanece isolado. As tensões de um território ecoam em outros, alimentando um ciclo de desconfiança que ultrapassa fronteiras geográficas. A instabilidade deixa de ser local e passa a ser compartilhada.

O Brasil, nesse cenário, reflete em escala própria essas mesmas dinâmicas. As desigualdades persistentes, o racismo estrutural e as múltiplas formas de violência cotidiana revelam que o passado ainda se projeta sobre o presente. Não como memória distante, mas como realidade que insiste em moldar relações, oportunidades e silêncios.

Diante disso, emerge um chamado discreto, porém essencial: repensar a forma como nos relacionamos. A liberdade, quando dissociada da responsabilidade, pode facilmente se tornar instrumento de exclusão. O conhecimento, quando afastado da ética, perde profundidade. O progresso, quando desprovido de humanidade, perde direção. E até a espiritualidade, quando não se traduz em cuidado, corre o risco de esvaziar-se de sentido.

Talvez o verdadeiro desafio resida no espaço entre extremos; nesse território silencioso onde escolhas cotidianas são feitas, onde o respeito é construído e onde a convivência se aprende. É ali que a civilidade deixa de ser discurso e se torna prática.

Ainda assim, permanece a possibilidade de transformação. Quando o ser humano reconhece suas próprias limitações e se percebe como parte de algo maior, inaugura-se um movimento: lento, por vezes imperceptível, mas essencial; em direção ao outro. Um movimento sustentado por escuta, responsabilidade e um senso mais amplo de pertencimento.

No fim, talvez reste apenas uma certeza suave: a de que o mundo que habitamos reflete, em alguma medida, as relações que cultivamos.

E aquelas perguntas que permanecem; silenciosas, mas insistentes, não pertencem apenas ao mundo, mas a cada um de nós. Ao reuni-las, percebemos que não são fragmentos isolados, mas partes de um mesmo tecido: o da experiência humana compartilhada.

É nesse encontro entre o íntimo e o coletivo que algo pode começar a mudar. Não de forma imediata ou grandiosa, mas no gesto contínuo de rever, reconhecer e reconstruir. Porque, ao fim, o futuro comum começa nas perguntas que temos coragem de sustentar.

Referências inspiradoras

Este texto dialoga, em forma de paráfrase, com reflexões amplamente difundidas por diferentes tradições filosóficas e humanistas acerca da ética, da responsabilidade coletiva, da diversidade e da transformação humana.

Om, shanti.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Geometria Sutil da Consciência

 Om, shanti. 
Geometria Sutil da Consciência


No invisível tear do ser,
cada pensamento é fio em vibração,
tecendo sentidos na trama sutil
que une todas as consciências.

A alma que soma luz
expande o campo do Uno,
a que subtrai, adensa sombras
no véu da própria ilusão.

Nada se perde.
Cada gesto é um traço na geometria do ser,
cada escolha, um ângulo
que aproxima ou afasta do centro.

Somar é alinhar-se à harmonia do Todo,
é reconhecer no outro
a mesma essência que respira em si.
Subtrair é contrair a luz,
é esquecer, por instantes,
a vastidão que nos habita.

Multiplicar é expandir consciência,
é servir sem ruído,
permitindo que o bem ecoe além de si.

Dividir é fragmentar o olhar,
é ver partes onde existe unidade,
é caminhar na ilusão da separação.

Mas nem tudo nasce do pensamento,
pois a vida também se move
por tramas que excedem o querer.
Ainda assim, é na consciência
que o caminho ganha direção,
e o vivido, significado.

Mas a consciência aprende,
não pelo peso do erro,
e sim pela lembrança do que é eterno.

E, pouco a pouco,
na delicada arquitetura da existência,
retornamos ao ponto de origem...
onde tudo é um,
e o um vive em tudo.

por Relaxar e Meditar
"Através da Geometria Sagrada são transmitidas frequências mais elevadas de energia e abrem-se outras dimensões da consciência. Nossas crenças internas criam padrões energéticos que suavemente são enviados para o Universo e que se manifestam na nossa experiência cotidiana; o invisível dá forma ao visível."