Namastê buscadores!
Foi arrancado do fogo primeiro, antes do tempo, entregue a quem guardaria a luz.
Como ninguém ousou carregá-la, deram-na ao homem — criatura de barro atento e sopro insubmisso.
Por isso quase não é possível tocá-lo: ele não nos pertence inteiro.
É fragmento vivo do sol primordial, trono diminuto de onde o Divino governa o caos íntimo.
Quem o segue não entra num caminho, mas numa epopeia.
As portas que se abrem são portais erguidos a golpes de luz, limiares tão antigos que se curvam para deixar passar.
O coração — abismo luminoso — bate como tambor de guerra celeste, convocando heróis esquecidos a retornarem ao próprio nome.
Cada pulso é proclamação, ordenando que a alma avance.
É mapa vivo, inscrito em veias que lembram rios sagrados, rios que atravessam mundos e guardam segredos que nem o silêncio ousa repetir.
Para alcançá-lo, é preciso cruzar desertos de quietude, enfrentar a noite interminável onde certezas se dissolvem como soldados largando escudos.
É preciso descer ao vale interno onde o medo ergue monstros e a coragem acende tochas para enfrentá-los.
Todo coração guarda um labirinto, e todo labirinto guarda uma fera — e a fera é feita de nós.
Quando enfim se revela, o coração se mostra como templo e tempestade.
Transfigura pedra em aurora, tristeza em rio indomado, ergue do comum um milagre que caminha.
É altar vivo, forja divina, trovão que reza, vento que decide destinos.
No centro desse reino há um viajante antigo — nós mesmos — sentado sobre as cinzas das vidas que já fomos.
Navega entre sombras e clarões, aprendendo que amar é a mais alta façanha, a única capaz de forjar mundos com mãos de luz.
Além do último véu, onde o sangue silencia e o espírito caminha sozinho, há um lago feito de auroras, mar sem margem onde o tempo esquece o nome.
Ali o coração se desfaz no que sempre foi: estrela oculta em forma de homem, lâmina de luz pura que não corta — revela para caminhar entre mundos.
Um abismo que respira, um templo que marcha, uma tempestade que ora, como quem comanda exércitos de luz.
Ele bate contínuo, no reino suspenso entre o agora e o eterno.
Não se abre com as mãos, mas com o gesto invisível de quem se entrega.
E quem chega, mesmo sem saber, já não quer partir: o coração é lugar de retorno, caverna primordial onde as primeiras palavras do mundo ainda ecoam.
Além do último limite, onde as luzes internas se dobram sobre si mesmas, há um lago sem margem, feito de claridade sem nome.
Ali, finalmente, o coração se desfaz no que sempre foi: um sol oculto no peito, astro íntimo que ilumina o que toca sem jamais consumir.




