quarta-feira, 6 de maio de 2026

Shalom!
O Fundo que Toca a Margem: 
Uma Reflexão sobre a Permanência

Este poema nos recorda que, embora o tempo risque a pele da vida com a lâmina dos dias, ele jamais alcança a "cripta submersa" onde guardamos nossa essência mais humana. Lá, onde a luz não se apoia, trabalha um calor lento: a nossa capacidade de transformar dor em presença, e distância em encontro.
Compreendemos que a verdadeira filantropia não é o que cai de cima, mas o que transborda do fundo. É o instante em que a meditação se torna ativa, a escuta se torna abraço e o altruísmo se torna o solo comum onde todos pisamos.
Que possamos, como sugere o verso, desaprender a buscar o que está fora para finalmente reconhecer o que já habita o centro. Pois a luz não se guarda; ela circula. E quando o nosso fundo finalmente toca a margem do mundo, não entregamos apenas ajuda, entregamos esperança inteira.

O Tempo Não Toca o Fundo

O tempo passa sobre as coisas
como vento morno na pele da água. 

Mas o fundo permanece.

Ficam nos cantos câmaras seladas
e jardins que florescem sem testemunha.

Assim o tempo risca a superfície
como lâmina em pedra branda,
sem jamais descer
à cripta submersa que respiramos.

Ali, onde a luz não se apoia,
há um calor lento
trabalhando o que não tem nome.

Espesso,
como terra depois da chuva,
o que fomos se desfaz
sem ruído.

Na boca, um gosto de sal.
Nas mãos, um resto de ferro.

Algo em nós reconhece
sem saber por quê.

No escuro do vaso,
onde a forma cede
e o rosto perde seu contorno,
um fogo sem chama insiste.

Não ilumina.
Transforma.

O que resiste endurece.
O que cede respira.

Gota a gota,
um brilho quase invisível
começa a subir da sombra,
como se a noite suasse luz.

Não há anúncio.
Apenas uma abertura súbita,
como terra rachando
depois de longa espera.

E então sem gesto, sem voz,
algo se revela no centro:
não como resposta,
mas como presença.

Simples e inteira.

O olhar que a toca
desaprende a buscar.
Permanece.

Acima, o tempo continua
seu desenho raso
sobre rostos e dias.

Mas abaixo,
no corpo silencioso do mundo, 
a obra segue:
como raiz no escuro,
como semente sob pressão,
como uma semente viva
que não precisa brilhar
para ser.

E às vezes,
sem aviso,
isso sobe à superfície
no meio de um gesto comum: 
um toque,
um silêncio,
um encontro sustentado além do medo.

E o que era distância
se desfaz por um instante.
Não porque algo veio de fora,
pois a luz não se guarda.
Circula.

Como sementes ocultas
no sangue do mundo,
aguardando
o instante exato
em que o fundo, enfim,
toca a margem.
Préservation de l'équilibre ·
Anne Sophie Versnaeyen · Armand Amar

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