segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Om shanti, buscadores!
Adentre os véus do desconhecido e permita que o poema seja a dança da luz com a sombra, a travessia que nos lembra que a centelha que somos nunca se apagou.

Travessia da Alma Luminar 


Tudo começa antes do começo —

num útero de silêncio onde o tempo ainda é feto,

enroscado no colo negro e dourado do Infinito.

Ali, uma centelha não nasce: recorda-se.

Respira sem pulmões,

palpita sem coração,

brilha sem chama.

Essa centelha és tu,

antes debaixo de sete véus de esquecimento.

Esse silêncio é o teu nome antes dos nomes.

E esse nome, proibido de ser pronunciado,

canta-te através dos milénios

como um sino que nunca foi fundido.


Há um Código de Luz tatuado

no osso mais íntimo da alma —

não com tinta, mas com ausência de sombra.

Não se lê: reconhece-se

no instante em que o olhar interno

se despe da última mentira consentida.

Esse Código não tem letras.

Tem portas.

E cada porta abre para dentro de outra porta,

até que o dentro e o fora

se beijem na mesma boca de luz.


Para escutarmos esse sussurro primordial,

descemos.

Não caímos — descemos com memória.

Entramos no grande teatro de argila e sangue,

no labirinto onde os espelhos mentem por piedade.

Trazemos nas costas

as cicatrizes de estrelas extintas,

os juramentos quebrados de deuses menores,

as lágrimas cristalizadas de civilizações

que acreditaram que o fim era possível.

Nas regiões mais densas dançam, lentos,

os três Guardiões de Chumbo:


A Matéria — mãe severa que nos embala e sufoca,

O Erro — amante cruel que nos ensina com beijos de faca,

As Cadeias — joalheiros que forjam elos de ouro falso

para que, um dia, possamos sentir o peso

e desejar a leveza com toda a força do desespero.

Eles não são carcereiros.

São parteiros disfarçados de algozes.

Cada golpe que dão

é um cinzel que retira o excesso de mim

até que sobre apenas o que nunca precisou ser esculpido.


Acima — ou talvez dentro, mais fundo que o fundo —

brilha a Trindade de Fogo Transparente:

O Espírito que conhece o nosso nome secreto

e o guarda como quem guarda uma brasa no peito,

A Verdade que não precisa falar porque já é o próprio silêncio ouvindo-se,

As Asas que nunca se dobraram,

mesmo quando fingimos ser apenas corpos que caminham.


Entre o abismo de baixo e o abismo de cima

caminhamos suspensos por um fio de luz

que ninguém vê,

mas que todos somos.

Ver de verdade exige o Grande Desnudamento.

Não é tirar roupa — é tirar história.

Despir o eu que nos emprestaram,

descoser as medalhas de sofrimento alheio,

arrancar as coroas de vítima e de salvador...

Raspar, com unhas de diamante,

as sete camadas de tinta com que pintaram o real:

a tinta da culpa,

a tinta do medo,

a tinta do orgulho,

a tinta do tempo,

a tinta do nome,

a tinta do desejo,

a tinta do próprio eu.

Quando a última película cai,

o mundo aparece nu,

tremendo de pudor e de glória,

como uma criança que acabou de nascer

e já se lembra de tudo.


Então, sem aviso, sem fanfarra,

o Amor desponta — não chega: irrompe de dentro.

O Amor não é sentimento.

É o estado natural do Ser quando deixa de fingir que está separado.

É um fogo que não consome lenha,

uma luz que não projeta sombra,

um som que se ouve com a pele.

Sob a sua regência,

o coração deixa de bater:

começa a ressoar.

Torna-se catedral sem paredes,

templo cuja abóbada é o próprio céu interno.

Nesse trono sem pernas,

sem cetro,

sem súditos,

o Amor senta-se —

e, ao sentar-se,

o universo inteiro cabe dentro de um único peito

sem ficar apertado.


Então sentimos, sem palavras,

o sopro de Deus

não passando por nós —

mas sendo nós,

enquanto passamos.

Sentimos os mundos invisíveis

reorganizando as nossas vísceras

como quem arruma flores num vaso de carne.

Sentimos o Cosmos

encolher-se de ternura

e deitar a cabeça no nosso colo

para dormir o sono dos bem-aventurados.

A partir desse instante sem relógio,

nada volta a ser o que parecia.


A paz já não é ausência de guerra —

é a presença tão absoluta da Luz

que a guerra se esquece de que um dia existiu.

Essa paz não se guarda:

transborda como um rio que descobriu o mar dentro de si.

Toca mãos que já não precisam pedir,

olhares que já não precisam procurar,

palavras que já não precisam convencer.

Um ser assim pacificado

torna-se um sol subterrâneo.

Não brilha para ser visto —

brilha porque não consegue deixar de brilhar.

E o seu brilho silencioso

acende, sem intenção,

outro coração,

e outro,

e outro,

numa corrente de chamas frias

que não queimam a matéria,

mas consomem a ilusão.


Porque a salvação do mundo

nunca foi coletiva no sentido de massa —

é coletiva no sentido de contágio de despertar.

Um único olhar que se lembra

faz tremer a teia inteira.

Uma única alma que volta para casa

arrasta, sem querer,

milhões de almas adormecidas

pelo simples facto de ter aberto a porta.


E assim seguimos,

véu após véu,

luz após luz,

morte após morte,

renascimento após renascimento,

até que o humano, enfim,

se lembre de que nunca deixou de ser

o próprio Mistério

disfarçado de peregrino.


Om shanti shanti shanti —

Que a tua centelha reencontre a Foguera Una

e, reencontrando,

se torne a Foguera

que reacende o caminho de todos

sem nunca se apagar.

Axé. Shalom. Assim é. 

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